A próxima geração de fármacos contra o cancro

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Como é que os novos avanços na síntese de polioxometalatos (POMs) podem ajudar a combater o cancro?

O grupo de investigação de Aureliano Alves, professor de Bioquímica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade do Algarve e investigador do Centro de Ciências do Mar (CCMAR), em colaboração com o grupo de investigação da professora Annette Rompel, responsável pelo Instituto de Biofísica da Universidade de Viena, analisaram criticamente as propriedades anticancerígenas de todos os polioxometalatos (POMs) conhecidos, com o objetivo de estudar a sua aplicação como agentes no tratamento de vários tipos de cancro.

Após um impacto bastante limitado com POMs puramente inorgânicos em décadas anteriores, novos progressos foram desenvolvidos neste campo nos últimos anos com a síntese de novos POMs.

Mas o que são POMs e para que servem? São aglomerados inorgânicos de vanádio, tungsténio e molibdénio, entre outros, que exibem uma ampla diversidade de estruturas e propriedades que conduzem à sua aplicação em vários campos, como catálise, fotoquímica, ciência dos materiais, cristalização de proteínas e na medicina. Segundo o investigador, “estruturas híbridas de POMs mostraram-se muito eficazes contra uma série de linhas celulares tumorais e a sua atividade anticancerígena superior à de drogas clinicamente aprovadas (como por exemplo a cisplatina)”.

Os autores apresentam uma revisão abrangente e atualizada desta área de pesquisa, abrangendo desde questões da síntese, até aplicações clínicas. Procuraram identificar as caraterísticas estruturais e físico-químicas que processam os POMs bioativos e que são, portanto, responsáveis ​​pelas atividades anticancerígenas, bem como discutir criticamente quais são os alvos biomoleculares e os processos bioquímicos afetados nas células cancerígenas.

Segundo Aureliano Alves, “o artigo permitirá informar a comunidade geral de químicos, biólogos e médicos cientistas sobre o estado atual da investigação nestas áreas do conhecimento e, especialmente, para apontar possíveis novos desenvolvimentos no futuro”, lê-se no comunicado da Universidade do Algarve.

 

Link: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/anie.201803868

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Propriedades dos Universos em Expansão

 

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(Imagem retida de http://www.hawking.org.uk)

No passado mês de março morreu um dos mais brilhantes cientistas dos últimos tempos, quer pela contribuição que deixou à física e astronomia, quer pela resiliência no combate às limitações físicas de uma doença que o atormentava desde os 21 anos. Stephen Hawking trouxe um novo olhar sobre os buracos negros, nunca deixando de se indagar sobre a origem do Universo.

Stephen Hawking nasceu em Oxford a 8 de Janeiro de 1942 – precisamente 300 anos depois da morte de Galileu Galilei e morreu a 14 de Março deste ano – no dia do nascimento de Albert Einstein há 139 anos, que é também o dia do Pi (3,14).

Para homenagear o legado que deixou vamos olhar para estas zonas do universo que tanto interesse despertarem no físico britânico.

Quando uma estrela de grande massa morre, a estrela de neutrões que resta tem uma massa tal que não consegue vencer a força da própria gravidade. A sua gravidade é tão forte que absorve tudo o que se aproxima, incluindo a luz. O objeto torna-se um buraco negro. Os buracos negros são objetos muito estranhos. Não apresentam forma material – deles resta apenas a gravidade. Tudo o resto foi comprimido num ponto de dimensões matemáticas indefinidas no centro do buraco, chamado singularidade. Aí as leis da física não funcionam. A gravidade é essencialmente infinita. Quando nos afastamos, a gravidade vai diminuindo até que, a um radio determinado, a velocidade de fuga desce abaixo da velocidade da luz. No interior desse raio, nenhum sinal emitido durante um qualquer acontecimento consegue escapar. Por esta razão, esta fronteira crítica é conhecida como horizonte de acontecimentos. Visto sobre um fundo luminoso, um buraco negro teria do aspeto de um disco negro sem qualquer característica que o distinguisse com as dimensões do seu horizonte de acontecimentos, rodeado por imagens de fundo profundamente distorcidas sobre o qual seria “visível”.

Uma das ideias, ainda não confirmadas por observações, ficou conhecida como a radiação de Hawking, um tipo de radiação libertada pelos buracos negros conforme se vão evaporando até desaparecerem. Este pressuposto assenta na ideia de que os buracos negros emitiam radiação, quando se defendia que apenas engoliam energia.

Por fim, referir que o título deste texto é idêntico ao titulo da tese de doutoramento, concluída em 1966, na Universidade de Cambridge  e que foi divulgada pela primeira vez no ano passado. Em menos de 24 horas, houve quase 60 mil downloads da tese, informava a Universidade de Cambridge, que considerou tratar-se de um documento “histórico”.

Na sequência desta publicação Stephen Hawking afirmou “ao tornar livre o acesso à minha tese, espero inspirar pessoas em todo o mundo a olhar para cima, para as estrelas, e não para baixo, para os seus pés”, uma ideia que sempre o acompanhou ao longo da sua vida.

Mente brilhante e elementar

Num dia como hoje de 1794, “bastou um instante para cortar essa cabeça, e cem anos podem não ser suficientes para dar outra igual”, disse um grande matemático ao conhecer como Lavoisier tinha morrido na guilhotina. 

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Antoine-Laurent Lavoisier. Autor: Louis Jean Desire Delaistre

Primeiro foi preciso que Robert Boyle, de Oxford, separasse a Química da Alquimia, uma mudança que viria a ser mais lenta do que o autor de The Sceptical Chymist teria desejado. Depois foi preciso um extraordinário (e azarento) Scheele ‘descobir’ o oxigénio apesar dos louros terem ido para Joseph Priestley. Mas a Química continuava a ser uma área muito desorganizada, cheia de dúvidas e buscas mais ou menos infundadas. Era necessário alguém que, com a visão suficiente, lançasse a Química na era moderna. Esse alguém foi Antoine-Laurent Lavoisier. Nascido em 1743, numa família rica, investiu numa empresa que cobrava impostos apenas aos pobres e de forma arbitrária. Claro que ele só queria a empresa para ter os recuros para o que ele realmente gostava: a ciência. Mas essa empresa viria a custar-lhe a vida. Lavoisier nunca descobriu um único elemento, mas deu sentido a todas as descobertas feitas pelos outros. Ignorou o flogisto, mas compreendeu para que servia e o que fazer com o oxigénio e o hidrogénio. Deu clareza e método à química enquanto ciência, pois era obcecado por medir e pesar tudo com enorme exactidão e foi assim que derrubou a teoria dos 4 elementos (ar, água, terra e fogo), segundo a qual a água podia transformar-se em terra.

No entanto, nem a fortuna que herdou com apenas 25 anos, livrou Lavoisier da guilhotina por ter ficado do lado errado na Revolução Francesa. Antes disso, teve ainda a sorte de casar com a filha de um dos seus patrões, que viria a ficar conhecida por Madame Lavoisier por ter trabalhado activamente junto do marido, tomando notas, fazendo ilustrações e traduzindo artigos em inglês. Juntos abordaram um dos temas mais prementes à época: por que é que umas coisas ardem e perdem peso quando aquecidas enquanto que outras – os metais – cobrem-se de óxido e ganham peso? Lavoisier suspeitava que os metais ganhavam o que o ar perdia e segiu as pistas de outros químicos.

De medição em medição chgeou ao seu acerto final: o Tratado Elementar da Química (1789), publicado no ano da Revolução Francesa, no qual explicava que a combustão, a oxidação dos metais e a respiração dos animais pertencem ao mesmo tipo de processos: reacções que consomem oxigénio. Como fazia as suas experiências em recipientes fechados, verificou que, nas reacções químicas, não se perdia nem ganhava nada e assim nasceu a primeira teoria científica da Química: a lei de conservação da massa de Lavoisier.

O julgamento do macaco

Nos dias que correm a polémica em torno do ensino do Criacionismo vs Teoria de Darwin tem ganho novas dimensõescom alguns estados dos Estados Unidos da América (EUA), e países, como a Turquia, que a proibiram o ensino das ideias de Darwin nas escolas. Contudo esta polémica já vem de longa data, quando em 1925 um professor de uma escola pública americana foi condenado por ensinar a teoria da evolução de Darwin. A história conta-se rapidamente.

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Por volta de 1925, havia no estado do Tennessee uma lei que proibia o ensino de teorias que contrariassem o relato bíbli

co da Criação. No entanto, o professor John Scopes atreveu-se a dar uma aula sobre Darwin numa escola de Dayton, Tennessee. Esta ousadia de liberdade académica custou-lhe um julgamento muito mediático e que os norte-americanos seguiram pela rádio em direto.

O que se passou foi que o professor mostrou na aula um livro que incluía as ideias desenvolvidas por Darwin na Origem das Espécies, e alguns alunos denunciaram-no. Um julgamento de apenas dez dias confrontou, pelo lado da defesa, Clarence Darrow, um advogado famoso, com William Jennings Bryan, do lado da acusação. Este último era um exímio advogado e foi três vezes candidato a presidente dos EUA pelo Partido Democrata.

Darrow argumentou que a teoria não contradiz o relato bíblico e provou-o apresentando no julgamento oito especialistas na teoria da evolução.

Para além disso, Darrow acusou um juiz de estar a beneficiar um culto, o que infringia o princípio constitucional de laicismo. Bryan propôs uma interpretação literal da Bíblia e da lei e argumentou que o ensino da teoria da evolução era moralmente prejudicial para os estudantes.

No entanto, a pérola do julgamento foi a intervenção do advogado de defesa que declarou que a Bíblia devia cingir-se ao âmbito do que é moral e não invadir o terreno da ciência.

Scopes foi considerado culpado e foi-lhe aplicada uma multa de 100 dólares. Ao conhecer o veredicto, o professor pediu a palavrapela primeira vez durante o julgamento: “Dr. Juiz, sinto que sou culpado por ter violado um estatuto injusto. Continuarei no futuro – como fiz desde sempre – a opor-me a esta lei de todas as formas possíveis. Qualquer outra atitude iria contra o meu ideal de liberdade académica, o de ensinar a verdade tal como está estabelecido na Constituição, com liberdade pessoal e religiosa. Sinto que a sentença é injusta.”

A sentença de Scopes, finalmente ficou sem efeito por um tecnicismo legal. O professor John Scopes continuou a dar aulas de geologia até se reformar.

A lei de Butler, que deu origem a todo o conflito e que proibia ignorar a participação de Deus, no ensino da origem da vida, permaneceu vigente até 1970.

Bicicletas e alucinações

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Albert Hofmann, en 1994. GETTY IMAGES.

A bike trip

Estávamos em 19 de Abril de 1985 no jardim da casa de Thomas Roberts, professor na Universidade de Illinois, e festejava-se… a bicicleta. Era apenas uma celebração privada até os alunos de Roberts espalharem o evento na cidade e, depois, pela internet. Não é uma data oficial.. mas por que razão Roberts escolheu o dia 19 de Abril?

A resposta recua até ao ano de 1943, quando o químico Albert Hofmann, que trabalhava nos laboratórios Sandoz (actual Novartis), decidiu usar-se a si mesmo como cobaia para os alcalóides do esporão de centeio. Motivado pelas sensações descobertas, três dias antes, quando testou em si os efeitos do LSD, uma variante do ácido lisérgico. 40 minutos depois de ter tomado uma dose de 250 microgramas, Hofmann anotou no seu caderno os efeitos que sentiu até não conseguir mais escrever: tonturas, ansiedade, alucinações visuais, vontade de rir, sintomas de paralisia. O cientista decidiu, então, ir para casa de bicicleta, pois, dvido à II Guerra Mundial, não haviam automóveis em circulação. Mais tarde descreveu aos seus chefes o que passou: “Ao voltar de bicicleta, o meu estado piorou e ficou perigoso. Tudo o que percepcionava pelo campo de visão estão distorcido, como um reflexo de um espelho curvo. Também tive a sensação de que não conseguia mover-me, ainda que o meus assistente me tenha dito que pedalámos a uma boa velocidade. Finalmente, chegámos a casa e pedi que chamassem um médico e me dessem leite. O médico não identificou qualquer doença, apenas dilatação nas pupilas”.

Depois a sensação de pânico inicial foi-se desvanecendo dando lugar a uma sensação de felicidade e gratidão. E foi então que começou a sentir o que a maioria dos consumidores de LSD descreve: “com os olhos fechados, via imagens coloridas, caleidoscópicas e espirais”. No dia seguinte, quando saíu ao jardim experimentou uma outra epifania visual: as cores do seu jardim estavam mais vivas e vibrantes do que nunca. “Os meus sentidos estvam num estado de grande sensibilidade visual que se prolongou durante todo o dia”, contou.

A verdade é que o LSD se tornou uma das drogas mais estudadas no mundo. Só entre 1943 e 1970 foram publicados mais de 10000 trabalhos científicos sobre aquela que ficou conhecida como “a droga da alma”. Hoffman morreu pouco tempo depois de ter sido dada a autorização, em certos países, para que o LSD fosse testado como fármaco antidepressivo e analgésico. E, à margem de tudo, isto os ciclistas foram apanhados nesta história alucinada. Se for comemorar, fique-se pelos pedais e não pelo LSD.

Divulgação: Fantasporto 2018

Hoje inicia-se o Fantasporto.

 

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Nos meus tempos de estudante, quando os exames semestrais acabavam, significava que era o tempo do Fantas.

Desde essa altura, que acompanho as novidades que o Fantas sempre nos traz e que deliciam os estudantes de ciências, mas não só! O Festival, que já vai na 38ª edição e cujo tema genérico é“Grande Cinema do Mundo”   ,começa e hoje às 21h e 15 com o Filme Marrowbone  de Sérgio G. Sanchez- (Horror).

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Podem consultar o resto da programação aqui.

Este ano, tenho a sorte de passar de mero espectador a participante no Fantas. Integrarei uma mesa redonda com Cristina Prudêncio (Presidente da Escola Superior de Saúde), Rui Nunes (fundador da Associação Portuguesa de Bioética e chefe do Departamento da Rede Internacional de Investigação da Cadeira da UNESCO em Bioética) e Carlos F. Oliveira (Coordenador do AstroPT):

BC2 = ? QUAL O PRODUTO DA BIOÉTICA, CINEMA E CIÊNCIA? 

DIA 26 Fev – 17h- Piso 3 RIVOLI (Entrada Livre)

Dentro do tema ética, teremos no âmbito do Festival, o seguintes filmes:

The Originals/ Al Asleyeen– (Ética na Segurança  Pública / Ethics in Public Surveyance) – Marwan Hamed – 125’ – Egipto – Semana dos Realizadores competição– v.o. leg ingl/leg. port. – ANTESTREIA MUNDIAL

Budapest Noir (Ética na Comunicação Social/Ethics in the Media) – Éva Gárdos- 95’- Hung-  Semana dos Realizadores competição – ANTESTREIA EUROPEIA

Bikini Moon (Ética na Segurança Social /Ethics in Social Security) – Milcho Manchevski – 102’- EUA – Semana dos Realizadores competição -ANTESTREIA EUROPEIA

True Fiction (Ética na Política /Ethics in Politics) – Jin-Mook Kim- 104’- Coreia do Sul– Cinema Fantástico competição – ANTESTREIA MUNDIAL

The Charmer (Ética na Emigração/Ethics in Migration issues) – Milad Alami – 102’ – Dinamarca– Semana dos Realizadores competição – ANTESTREIA

Chimera (Ética na Investigação Científica/Ethics in Scientific Research) Maurice Haeems – 80’ –India/ United Arab Emirates/USA-  P&P- ANTESTREIA MUNDIAL

Uma Vida Sublime (Ética Profissional / Work Ethics) – Luís Diogo – 106´ – Port-  Semana dos Realizadores competição – v.o.port/leg ingl. – ANTESTREIA MUNDIAL

Involution- (Ética na Sociedade/Ethics in Society) -Pavel Khvaleev – 87’ –Russ/Alem- Fantástico –Fantasy, Sci-fi – Cinema Fantástico competição – v.o.leg ingl/leg port – ANTESTREIA MUNDIAL.

 

Elementar, meu caro Mendeleyev

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Mendeleyev em 1897

 

O seu nome ficou mais famoso por estar em milhões de garrafas de vodka e ele atravessou ‘as passas do algarve’ para vingar na Ciência com uma vida tão atribulada. Mas o seu legado é elementar: a Tabela Periódica, criado no século XIX, por Dimitri Mendeleyev (1834-1907).

Em 1849, quando tinha apenas 15 anos a sua família perdeu tudo num incêndio e a sua mãe levou-o para St. Petersburgo para que ele pudesse continuar os estudos. E foi assim que o jovem Mendeleyev deixou a sua Sibéria natal e atravessou mais de 6000km, sem que houvessem combóios. Nesse mesmo ano, Dostoyevsky fez a viagem inversa quando foi deportado para a Sibéria.

Anos depois, as aulas de Mendeleyev eram bastante populares com centenas de estudantes  atentos a um homem extravagante que admitia mulheres nas suas turmas e que só se barbeava e cortava o cabelo 1 vez por ano. Mas Mendeleyev não era um showman, apenas leccionava aulas interessantes e animadas, sem seguir qualquer livro de texto, até porque não havia nenhum sobre química em russo. Quando se propôs a escrever um, decidiu resolver também o problema da desordem dos elementos químicos.

Fechou-se no seu gabinete a ordenar os dados de cada elemento. Primeiro, ordenou os elementos de acordo com o peso dos seus átomos. Outra possibilidade era formar grupos com elementos semelhantes. Então, ele percebeu que poderia combinar as duas regras e, com o seu baralho de 63 elementos conhecidos, formou uma espécie de jogo do solitário, com o peso atómico aumentar em cada linha e os elementos de propriedades semelhantes alinhados em colunas. E ele não se ficou por aí: também mudou de lugar os elementos que não se encaixam devido ao seu peso e deixou espaços livres para elementos ainda não descobertos. Além disso, baseando-se no facto de que as propiedades químicas dos elementos se repetirem periodicamente em cada fila, foi fazendo as suas previsões de novos elemetos que viriam a ser descobertos mais tarde. Daí também o nome de Tabela Periódica.

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Monumento à Tabela Periódica em Bratislava (Eslováquia). Crédito: MMMDIRT

Dez anos depois, já se tinham descoberto 3 novos elementos que encaixavam nas previsões de Mendeleyev: o gálio, o escândio e o germânio. A Ciência rendeu-se, então, aos pés do cientista russo rebelde. E até o Czar Alexandre II perdoou a insubordinação política do cientista e a sua bigamia quando este se apaixonou por uma jovem estudante de Artes. “É certo que Mendeleyev tem duas mulheres, mas eu só tenho um Mendeleyev”, disse o governante.

Conta-se ainda que o czar definiu que o vodka com denominação de origem deveria ter 40 graus de álcool para aproveitar ao máximo o seu sabor, segundo calculou Mendeleyev na sua tese de doutoramento. Mas isto não passa de um mito e de uma operação de marketing, já que Mendeleyev nunca estudou a vodka e a marca dos 40 graus foi estabelecida quando ele tinha apenas 9 anos.

A personalidade instável de Mendeleyev viria a trazer-lhe problemas entre os seus pares, pois ele ficava furioso com os seus colegas que adoptavam novas ideias como a da existência do electrão, algo que o russo se negou a aceitar. No entanto, conhecer o interior dos átomos serviu para consolidar a sua tabela periódica que, hoje, se ordena não pelo peso atómico, mas pelo número de protões. Mas Mendeleyev viria ainda a ser homenageado quando, em 1955, se denominou mendelévio ao elemento 101 que é altamente instável.

Astronomia no passado

Olhando para feitos recentes da ciência, existe uma certa tendência para considerar as primeiras civilizações ignorantes em matéria de Ciência. Na realidade, muitos pontos de vista, eram de facto muito primitivos. Mas é notável que o seu profundo conhecimento de astronomia tenha também influenciado a sua arquitetura. Por volta de 3000 a.C., começou a construção de um dos mais famosos monumentos do mundo, Stonehenge, que hoje se pensa ter sido um primitivo observatório astronómico. O Stonehenge é provavelmente o mais conhecido monumento megalítico da Europa. Fica numa zona rural em Inglaterra e é uma importante atração turística. Ninguém sabe precisamente como foi construído em diferentes épocas pelos druídas. A primeira fase deve ter começado há cerca de 5 mil anos, com a criação do núcleo original – um conjunto de banco de terra, buracos e valas. O primeiro círculo de pedras foi erigido possivelmente mil anos mais tarde, tendo sido completado por volta de 1500 a.C. Há quem pense que Stonehenge foi usado para sacrifícios humanos ou como lugar de sepultura para pessoas importantes. Contudo, existe também uma teoria popular segundo a qual se trataria de uma espécie de observatório, usado para prever os movimentos e os eclipses da Lua e do Sol. As provas estão no alinhamento dos monumentos, que permite que todos os anos, no solstício de verão, o Sol nasça de uma das pedras principais, conhecida como a Heel Stone.

Na mesma época em que começou a ser construído o Stonehenge, mas em outro continente, os Egípcios erigiam as suas pirâmides de Gizé, localizadas de maneira a alinharem perfeitamente com certas estrelas do céu. Os antigos egípcios tinham grande interesse pelo céu. As pirâmides do planalto de Gizé estão alinhadas com grande precisão de acordo com os pontos cardeais; cada uma das faces está orientada para norte, sul, este ou oeste com diferença de apenas alguns décimos de grau. Além disso, no tempo em que as pirâmides foram construídas, o pólo norte era diferente do atual. Há uma teoria, ainda não inteiramente fundamentada em provas, que sugere que Gizé foi construída como reflexo do céu noturno: as três pirâmides representariam as estrelas do cinturão da constelação de Orionte -conhecida pelos Egípcios como Osiris, o deus dos Mortos -, enquanto a Esfinge seria a constelação de Leão, e o rio Nilo a Via Láctea.

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Dois milénios mais tarde, os Maias faziam o mesmo no Novo Mundo. A civilização maia estabeleceu-se em territórios dos atuais México, Guatemala, Belize, Honduras e El Salvador, e floresceu entre 1500 a.C. e 900 d.C.. Tal como os antigos Gregos, os Maias tinham um grande interesse científico pelos céus estimulado pela sua religião. As provas deste fascínio são claras, especialmente na orientação de muitas das suas cidades. Um bom exemplo disto é a famosa pirâmide

de Palenque. As janelas laterais e o topo estão orientadas de maneira a serem plenamente iluminadas pelo Sol na manhã anterior ao dia em que Vénus se torna visível. A pirâmide de Chichén Itzá oferece-nos outro exemplo. Nos equinócios, a iluminação do Sol sobre as escadas e no topo da pirâmide cria a ilusão de uma serpente –  Quetzalcoatl, o deus-serpente maia, que personifica o planeta Vénus.

Estes são apenas alguns exemplos de civilizações que se dedicaram de forma independente a desenvolver a sua arquitetura de maneira que esta se conformasse ao movimento da luz (e dos deuses) no céu.

O acontecimento de 2017

Esta época do ano é caracterizada pelo balanço nas diferentes áreas da sociedade, elegendo-se as figuras nacionais e internacionais e os acontecimentos que marcaram o ano. Mais do que uma revisão do que se passou, estas listas deveriam procurar marcar tendências esperadas para o ano seguinte.

Na Ciência, a definição do acontecimento do ano vem com um lastro de importância maior do que em outras áreas porque este evento está na pole position para ganhar um dos Prémio Nobel da área da Ciência no ano seguinte.

A revista Science escolheu para 2017, como acontecimento do ano, a primeira observação da colisão de duas estrelas de neutrões. A colisão das duas estrelas, a 130 milhões de anos-luz, gerou ondas gravitacionais detetadas na Terra. Ondas essas que tinham sido previstas há mais de cem anos pelo físico Albert Einstein, mas foram detetadas diretamente pela primeira vez em 2015 (Prémio Nobel da Física em 2017), quando dois grandes buracos negros (zonas do Universo de onde nada pode escapar, nem mesmo a luz) chocaram.

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Ilustração: NSF/LIGO/Sonoma State University/A. Simonnet

As estrelas de neutrões são os objetos de grande escala mais densos no universo conhecido. Embora tenham apenas cerca de 30 km de diâmetro, têm uma massa como a totalidade do sistema solar. Usando uma outra imagem, seria como comprimir toda da população humana no volume de um cubo de açúcar. As estrelas de neutrões são assim chamadas porque são quase inteiramente constituídas por partículas subatómicas chamadas neutrões. Normalmente, os átomos contêm neutrões e protões nos seus núcleos. No entanto, quando se formam estrelas de neutrões, a compressão é tal que a matéria se desintegra. Os eletrões e os protões combinam-se para formar mais neutrões, e a estrela torna-se uma bola gigantesca de partículas subatómicas combinadas. As estrelas de neutrões normais têm campos de força magnéticos que chegam a ter 50 mil milhões de vezes mais potência do que um magneto do frigorifico. Por vezes formam-se campos ainda mais potentes, cerca de 100 mil milhões de vezes mais forte, que poderiam desmagnetizar todos os cartões de crédito existente na Terra.

Esta é uma descoberta do tipo dois em um: pela primeira vez, foram detetadas as ondas gravitacionais que se geram na violenta dança cósmica entre duas estrelas de neutrões, e também pela primeira vez, foi captado, com recursos a dezenas de telescópios terrestres e espaciais, o brilho intenso e efémero que se gerou na colisão inevitável que se seguiu. Esta observação permite por um lado confirmar ondas gravitacionais utilizando pela primeira vez a luz (até agora só se tinham confirmado este tipo de ondas nas colisões entre buracos negros), e por outro lado, a verificação de que as colisões de estrelas de neutrões produzem ondas gravitacionais.

Aguardemos até ao início de outubro para verificar se o acontecimento de 2017 vai originar um Nobel.

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