O dragão devora o Sol

Durante muitos séculos os fenómenos naturais foram vistos como manifestações de entidades superiores sobre a Terra como forma de procurar encontrar suporte intelectual para compreender estas manifestações. A aridez de conhecimentos sobre estes fenómenos levou a uma ausência de explicações sérias e credíveis conduzindo a interpretações onde o sobrenatural dominava onde sobre o racional, originando diversas lendas. Uma das áreas do conhecimento onde surgiram mais histórias foi a astronomia e, em particular, a ocorrência de eclipses.

Um desses contos de origem chinesa, que dá origem ao título deste texto, afirma que um eclipse ocorre porque um enorme dragão devora o Sol.

Para os egípcios, os eclipses do Sol evocavam Apófis e Rá (o deus Sol) em ocasiões em que Apófis se colocaria no caminho de Rá para combater. No caso da Roma antiga, a população tinha por costume gritar em voz alta com a finalidade de socorrer o Sol eclipsado, para o chamar de volta.

Apesar de toda esta ideia de mistério que envolve um eclipse, a interpretação da formação deste fenómeno é bastante simples. O eclipse do Sol ocorre quando surge um alinhamento entre o Sol, a Lua e a Terra. A luz solar ilumina metade do globo terrestre, pelo que do lado oposto, que corresponde ao hemisfério não iluminado forma-se um cone de sombra e um cone de penumbra.

O eclipse do Sol ocorre quando a sombra ou penumbra da Lua (que se forma de modo semelhante à da Terra) atinge a Terra. Desta forma, o Sol deixa de ser total ou parcialmente visto em regiões restritas da superfície terrestre. Estas condições só ocorrem se a Lua se encontrar na fase de lua nova. Mas se a Lua de 29,5 em 29,5 dias está em lua nova, porque é que, então, não temos ciclicamente eclipses do Sol?

Neste intervalo de tempo, a Lua dá uma volta em torno da Terra existindo, deste modo, num ano cerca de 12 fase de lua nova, pelo que seria de esperar 12 eclipses solares, contudo há apenas em média 2 eclipses do sol em cada ano. Isto significa que não há eclipses do Sol em todas as luas novas. A explicação para este facto é simples: a trajectória que a lua descreve em torno da Terra – órbita da Lua – não coincide com a trajectória que a Terra descreve em torno do Sol – órbita da Terra.

O plano orbital da Lua tem um desvio de 5 graus em relação ao plano da órbita da Terra em torno do Sol (conhecido como eclíptica), embora 5 graus seja um valor aparentemente pequeno, é suficiente para que seja raro o alinhamento perfeito dos três astros – Sol, Lua e Terra.

A linha que resulta da intersecção entre os planos da órbita da Terra e da Lua é conhecida como “linha dos nodos” e é constituída por dois nodos, denominados nodo ascendente, em que a Lua cruza a elíptica ao passar de Sul para Norte e o nodo descendente, em que a Lua cruza o plano orbital da Terra de Norte para Sul. Deste modo, as condições de alinhamento dos três astros só ocorrem em dois pontos específicos e diametralmente opostos, limitando claramente a ocorrência de um eclipse.

Teoricamente existiriam duas épocas ao longo de um ano, espaçadas entre si 173 dias, em que podem ocorrer eclipses, mas devido às perturbações gravitacionais sofridas pela órbita da Lua, estas épocas variam com o tempo.

Os eclipses do Sol podem ser classificados segundo os aspectos que apresentam, existindo, desta forma, os eclipses totais, parciais e mais curioso deles todos, o anelar. O eclipse, que foi possível observar recentemente, resulta do facto da órbita da Lua em torno do Sol não ser exatamente circular; assim, a distância da Terra à Lua não é constante. Se houver um alinhamento e a Lua estiver um pouco mais afastada da Terra não obstrui totalmente o disco solar, sendo visível um estreito anel de luz.

Esperemos então por próximo eclipse do Sol para ver se conseguimos observar dois lobos, Skoll e Hati, a perseguir o Sol e a Lua, como defendiam os escandinavos!

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