Do homem de barro ao homem de silício

Um dos primeiros autómatos da história surgiu por volta do século VI, em Praga, na forma de lenda. Ele recebeu o nome de Golem que, em hebraico, significa algo como “substância imperfeita ou embrionária”. Segundo o que os judeus contam, Golem nasceu como um tosco boneco de argila, criado pelo rabino Judah Loew ben Bezulel para proteger os judeus da comunidade das constantes perseguições. Para dar vida à argila, o rabino pronunciou várias letras sagradas do secretíssimo ritual da Cabala, a tradição mística judaica. O Golem tornou-se então um fiel e poderoso protector da população, mas aos poucos, adquiriu consciência, passou a reclamar status de ser humano e fugiu do controle dos judeus. A história tem um final dramático, quando ele se apaixona pela filha do rabino, que acaba por destruir a criatura. 

Esta pequena história mostra como o Homem procurou criar um ser semelhante a ele, sobre o qual pudesse exercer domínio total. Para tal, o Homem promoveu o desenvolvimento de formas de Inteligência Artificial (IA). 

É com o advento dos computadores, que a IA ganha potencial para se desenvolver. A ciência que se dedica a estudar esta tecnologia tem por finalidade criar máquinas que reproduzam as actividades inteligentes do homem, com uma performance, se possível, superior à do ser humano. O ponto básico de que partem os cientistas é o próprio conceito de inteligência, em que a capacidade de aprender é umas das principais definições. Deste ponto de vista, as máquinas inteligentes são aquelas capazes de aprender a fabricar um automóvel, a construir uma casa ou, mesmo, fazer um diagnóstico médico. 

Na realidade, a capacidade de aprender é apenas um dos aspectos da inteligência. Outro critério válido de inteligência é a maturidade emocional de um indivíduo, que alguns cientistas transportaram para o campo da IA, usando o termo “inteligência emocional”. Existem, ainda, outros aspectos da inteligência, como a consciência ou a capacidade de julgamento, que devem ser levadas em consideração. 

Uma metodologia usada nos estudos sobre inteligência é a quantificação da actividade cerebral. Para tal, é preciso considerar o cérebro como uma rede de neurónios onde apenas um grupo deles está activo durante cada actividade mental. O nosso cérebro é composto por neurónios que se conectam por meio de um fenómeno denominado sinapse. 

O trabalho do médico português António Damásio trouxe às neurociências informações muito importantes sobre o papel das emoções no ser humano, nomeadamente, no processo de tomada de decisão. Estes resultados foram utilizados no trabalho de síntese de emoções em agentes virtuais e robóticos. 

Com base nestes estudos foram construídos agentes virtuais e robôs com sistema nervoso de silício que replicam as emoções primárias e secundárias descritas para o ser humano, a partir de um estímulo. Estas emoções são processadas em dois níveis. O primeiro nível de processamento, rápido e simples, permite uma avaliação grosseira de parâmetros como a cor, intensidade da luz, velocidade ou dimensão de um objecto e permite, por exemplo, reagir rapidamente em casos de urgência. Uma segunda análise, mais fina, fará a identificação do estímulo por comparação com outras situações. 

Os robôs ainda não são capazes de, por exemplo, amar alguém, mas já conseguem orientar-se num campo com obstáculos e reconhecer imagens, que associam a estados do corpo e definem tomadas de decisão: desviam-se de caixas, reconhecem zonas de descanso, comida boa, comida má e brincam com uma bola. 

Popularizada pela ficção cinematográfica, a IA surge associada a algumas questões como: será que estes “homens de silício” irão competir com os seres humanos? Chegará o dia em que não será mais possível distinguir o homem da máquina?

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1 comentário a “Do homem de barro ao homem de silício”

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