Revelada história genética do cacau do Brasil

O que sabe dos chocolates que come? Investigadores avaliam estrutura genética e diversidade das variedades do cacau da Bahia e identificam árvores resistentes à praga que nos privou de um dos melhores cacaus do mundo. Mas a saga continua.

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Variedades genéticas do Cacau da Bahia

Lembra-se da fraseforasteiro sem raiz na terra”? Era assim que o escritor Jorge Amado se referia às pessoas que moravam em Ilhéus, mas não se dedicaram ao cultivo do cacau. Isto mostra o quanto a saga do cacau no sul da Bahia está intrincada na história económica e cultural do Brasil. E se não fosse esse mesmo cacau, o escritor não se teria inspirado para a sua Gabriela, cravo e canela. Um dia, muitos anos antes, quando a floresta cobria muito mais terra, quando se estendia em todas as direções, quando os homens ainda não pensavam em derrubar as árvores para plantar a árvore do cacau que todavia não chegara da Amazónia”, lê-se no conhecido romance.

Mas os tempos da Gabriela já acabaram há muito e tudo por culpa do fungo Moniliophtora perniciosa, que transmite a doença da vassoura-de-bruxa. A praga apareceu na região de Ilhéus-Itabuna em 1989 e alastrou-se tanto que afectou os frutos, os brotos e as flores dos cacaueiros. Por isso, o Brasil passou do segundo maior exportador mundial de cacau para o sexto.

As árvores deixaram de dar frutos. A produção brasileira, que era de 320 mil toneladas por ano, caíu para 190 mil toneladas anuais em 1991. Tudo isto devido à queda do cacau baiano. Só a Bahia concentrava 80% da produção de cacau.

Não se baixaram os braços e, nas últimas duas décadas, muitos esforços têm sido feitos para o combate à praga vassoura-de-bruxa, sobretudo tentando identificar novas variedades de cacau resistentes à praga, pois o fungo continua presente no sul da Bahia.

Um desses estudos, agora publicado na Plos One, descreve a estrutura genética e a diversidade molecular do assim chamado “cacau da Bahia”. O estudo é liderado por Anete Pereira de Souza, do Instituto de Biologia e do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Universidade Estadual de Campinas.

Para entender a razão genética para a extrema susceptibilidade do cacau da Bahia à vassoura-de-bruxa, Souza e a sua doutoranda Elisa Santos, da Universidade Estadual do Sudeste da Bahia, recolheram 219 amostras de folhas de cacaueiros em sete fazendas, assim como outras 51 amostras de híbridos desenvolvidos ao longo de décadas no Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec/Ceplac), de Ilhéus. Depois sequenciaram o DNA nuclear das 270 amostras, focando a sua análise em 30 marcadores moleculares – pequenos pedacinhos de DNA que servem de parâmetro de comparação entre as variedades. O que se descobriu foi que a base genética do cacau da Bahia é muito estreita. Literalmente todos os cacaueiros baianos têm a sua origem num número muito pequeno de indivíduos, ou seja, de sementes da variedade Forastero. É que essas sementes foram muito bem escolhidas pela qualidade do cacau produzido pelas árvores que lhes deram origem. Entre essas sementes estão as que foram trazidas por Warneau há 270 anos. Se, por um lado, a reduzida diversidade genética das plantas garantia a qualidade do fruto, por outro tornava toda a população de cacaueiros frágil, dada a ausência de variedades que podiam resistir a uma ameaça como a vassoura-de-bruxa.

Para piorar a situação, os investigadores descobriram que os híbridos desenvolvidos pelo centro de melhoramento nos anos 1950 e 1960 (e cultivados até hoje), em vez de aumentarem a variação genética na população cacaueira, acabaram por a reduzir ainda mais, já que também foram produzidos com base apenas na qualidade do cacau.

Mas nem tudo foi mau. Durante o estudo, identificaram-se também árvores resistentes à doença e com maior variação genética que aquela encontrada nos híbridos atualmente existentes. Ainda há esperança, portanto, para o cacau da Bahia.

O artigo Genetic Structure and Molecular Diversity of Cacao Plants Established as Local Varieties for More than Two Centuries: The Genetic History of Cacao Plantations in Bahia, Brazil (doi: http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0145276), de Elisa S. L. Santos, Carlos Bernard M. Cerqueira-Silva, Gustavo M. Mori, Dário Ahnert, Durval L. N. Mello, José Luis Pires, Ronan X. Corrêa, Anete P. de Souza, pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0145276.

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