Ciência e translação: clausuras ou descobertas

“Truth and utility are the very same things”
Francis Bacon, New Organon, I, Aphorism 124

Ainda esperei uns dias, mas nada. Nenhuma reflexão um pouco mais a sério foi feita nos media portugueses sobre um dos eventos mais interessantes em termos de discursos e políticas sobre Ciência em Portugal nos últimos tempos: o lançamento oficial do centro europeu de investigação de excelência em medicina regenerativa e de precisão, com o nome oficial de The Discoveries Centre for Regenearative and Precision Medicine.

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O Discoveries visa criar em Portugal um novo centro de investigação de excelência e pretende focar-se em investigação nas áreas das doenças músculo-esqueléticas, neuro-degenerativas e cardiovasculares. Resulta de uma parceria entre cinco universidades portuguesas (Minho, Porto, Aveiro, Lisboa e Nova de Lisboa) e uma universidade líder mundial em Ciências e Tecnologias da Saúde, a University College London (UCL), do Reino Unido. Todas reúnem uma forte e reconhecida atividade nesta área de investigação. O projeto conta com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), coordenadora da proposta, e das Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regionais (CCDRs) do Norte, Centro e Lisboa e Vale do Tejo.

Claro que ainda se trata apenas de um lançamento, de um projecto com objectivos arrojados, mas também se trata de um dos maiores investimentos de dinheiros públicos em Ciência nos últimos anos. Para mim, foi um evento particularmente interessante do ponto de vista da sociologia da ciência. Nesta perspectiva, este texto analisa, muito sumariamente, o pontapé de saída oficial deste empreendimento no panorama científico português.

– Do panoptismo com nome de inovação

Tenho defendido que a vasta literatura sobre o modo-1 e modo- 2 de produção de conhecimento gerou mais prosa do que a fidelidade ao trabalho do autor dessa dicotomia queria significar. “Assim como no modo 1, o conhecimento foi acumulado através da profissionalização da especialização institucionalizada em grande parte nas universidades, no modo 2 o conhecimento é acumulado através da configuração repetida de recursos humanos em formas de organização flexíveis e essencialmente transitórias” (Gibbons et. Al, 1994, p. 9). Por mais tentador que fosse associar o Mode-1 com ‘ciência real’ e ‘ciência fiável’ e  o modo-2  com ciência pós académica, isso não pode ser assumido do que foi defendido por Gibbons. O que pode ser defendido é uma associação crescente entre o modelo de controlo burocrático weberiano e o panóptico de controlo foucaultiano.

Ora, o Panóptico era um edifício em forma de anel e, no meio desse anel, estava um pátio com uma torre no centro. O anel era formado por pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior. Em cada uma dessas pequenas celas, havia uma criança a aprender a escrever, um operário a trabalhar, um prisioneiro a ser corrigido, um louco a tentar fugir da sua loucura, etc. Na torre havia um vigilante. Cada cela dava ao mesmo tempo para o interior e para o exterior, pelo que o olhar do vigilante podia atravessar toda a cela. O panoptismo corresponde à observação total, é a tomada integral por parte do poder disciplinador da vida de um indivíduo.

No modus operandi actual da Ciência, nas últimas décadas, este panoptismo tem assumido um nome e uma função cada vez mais central:  a da investigação que aplica resultados de investigação básica à investigação clínica. No entanto, a definição de investigação translaccional também engloba o reverso da medalha: o reforço da investigação básica. O problema é que este reverso tem sido esquecido. Ficamos, então, com um lobby cada vez mais forte, o dos translational research offices ainda a tentarem saber o que são, ainda a debitar manuais de inovação e empreendedorismo, mas ainda com muito pouco interesse pela Ciência e pela investigação com as quais estabelecem uma relação do tipo sinfilia (relação ecológica em que se mantém em cativeiro indivíduos de outra espécie para obter vantagens.)

No exemplo que aqui hoje tratamos, o lançamento do Discoveries Centre, o grande vencedor na panóplia de discursos sobre este investimento de 25 milhões de euros (dos quais 15M provêm da Comissão Europeia e dez milhões das comissões coordenadoras do Norte, Centro e Lisboa e Sul do Tejo) é precisamente, não a investigação, mas a componente translacional do projecto. De tal forma, que antes de haver uma estratégia científica, uma discussão sobre a Ciência a fazer, sobre o perfil dos investigadores, das grandes questões tecnológicas e científicas, das dificuldades, já foram apresentadas as directrizes sobre a componente translaccional do projecto e já está criado um Discoveries Translational Office. Nada contra, mas não deixa de ser sintomático da tal sinfilia.

The Discoveries Centre

O caso do Discoveries ainda é mais interessante dado que inclui dois países com discursos sobre a Ciência que incluem diferenças significativas. Só para dar um exemplo: Portugal e Inglaterra são dois países muito diferentes no que respeita ao ‘lugar’ da investigação na vida académica e na vida em geral. Se na Inglaterra podemos encontrar, principalmente através de exercícios como o RAE e o REF, uma cristalização do discurso de centralização da investigação valiosa e útil, em Portugal tal discurso está muito longe de ser o dominante, embora possamos encontrar alguns sinais dessa valoração. No entanto, em ambos os países podemos encontrar a centralidade da avaliação na vida académica, sendo essa avaliação relacionada, principalmente, com a investigação.

É já indiscutível entre investigadores, industriais, gestores, etc, que as organizções devem tornar-se mais flexíveis. O elevado progresso tecnológico e científico é visto como o principal motivo para essa necessidade de uma maior adaptabilidade. Mas também sabemos que uma maior vontade para aceitar a mudança e conseguir essa maior flexibilidade organizacional são difíceis de alcançar devido os princípios ainda dominantes da maioria das organizações científicas e académicas: os princípios do controlo e da burocracia e não os da inovação e da mudança. E o que tem acontecido, tanto em empresas de grande dimensão como em grandes institutos de investigação é que se criam departamentos dedicados à inovação, transferência de tecnologia e translacção que se tornam essencialmente unidades burocráticas cujas competências são também exclusivamente burocráticas. Em instituições mais recentes e ainda em processo de afirmação de identidade, esta moralidade burocrática é agravada por uma maior dependência da direcção dessas instituições. Enquanto que numa instituição pública, como as universidades, as unidades de inovação ainda trabalham, até certa medida, em prol da instituição e de uma ideia de inovação muito mais directamente ligada à comunidade, nos outros casos, a actuação das unidades de inovação segue maioritariamente interesses individuais e personalistas.

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Em grandes organizações verificam-se ainda obstáculos persistentes à inovação e criatividade:

  1. A inércia de uma grande instituição;
  2. O poder restritivo de rotinas usadas e abusadas;
  3. A moralidade administrativa;
  4. A small talk que sustenta a tal organização panóptica encurta a capacidade de fazer algo com as novas ideias que surjam na organização. A própria dimensão de uma organização requer padronização e um sistema de controlo com pouco espaço a pensamentos divergentes e não-convencionais. E isso é visível frequentemente nas essenciais unidades de inovação e translacção, mas não só.
  5. Se a padronização e essa moralidade administrativa são levadas longe demais são sempre a criatividade científica e a inovação que perdem.
  6. Um conjunto de valores desactualizdo que favorece o controlo, a estabilidade inerte contra a mudança e flexibilidade.

O contexto

Ao olharmos para os sistemas de fusão na economia global do conhecimento, é clara a existência de uma diversidade de formas que emergiu de infraestruturas já existentes, mas que passaram a confundir tendências auxiliares com pilares fundamentais. Ou seja, assiste-se hoje, no panorama português e não só, a um revivalismos de relações colonialistas em formatos que desenvolvem o ‘neo-imperealismo’ na ciência baseados em sistemas de trocas de natureza essencialmente burocrática.

As universidades encorajam formas de colaboração internacional competitivas e não-competitivas que convivem com um recuo histórico no financiamento das instituições de ensino superior  e com a construção de parques de ciência baseados em spin-offs e em patentes. Uma questão fundamental é saber se os fundos angariados nessas formas de colaboração ditas competitivas serão usados para apoiar e subsidiar formas menos competitivas de colaboração e, por conseguinte, se as universidades vão ser capazes de acomodar dois discursos legitimizadores paralelos: o da justiça social e bem comum e as iniciativas com fins lucrativos.

Talvez os ‘sharable goods’ dependentes da tecnologia vistos como uma forma de troca e produção social, juntamente com o Estado e o mercado, façam emergir um terceiro modo de organização da produção científica que inclua um novo despertar da investigação básica e das formas não materiais da produção académica. Talvez depois dos três grandes momentos da história da Ciência – ciência clássica, ciência colonial e ciência global (Peters,2013), possa (re)surgir a ciência de ideias, materializando o que já tinha sido argumentado no UN Creative Economy Report 2008:

“In the contemporary world, a new development paradigm is emerging that links the economy and culture, embracing economic, cultural, technological and social aspects of development at both the macro and micro levels. Central to the new paradigm is the fact that creativity, knowledge and access to information are increasingly recognized as powerful engines driving economic growth and promoting development in a globalizing world. “Creativity” in this context refers to the formulation of new ideas and to the application of these ideas to produce original works of art and cultural products, functional creations, scientific inventions and technological innovations” (p.3).

Por tudo o que aqui ficou condensado neste texto, e muitas outras coisas, julgo que o The Discoveries Centre for Regenerative and Precision Medicine será um excelente estudo de caso na história e sociologia da Ciência em Portugal. Mas desejo, acima de tudo, que a ‘excelência’ que consta na definição e propósito deste projecto aconteça sobretudo na investigação científica e que seja esta a liderar as translações necessárias e pertinentes, ao invés de se subordinar a lobbies de ‘let me introduce myself’ e da ‘small talk’ da meldicência e da burocracia. Porque as descobertas só podem ser grandes.

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