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Não se falou de Yoga no Ciência 2017

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Acreditando no relato que consta no artigo do Público intitulado “O Ciência 2017 voltou depois à Ciência” fica claro que o trabalho apresentado no evento Ciência 2017 intitulado “Ioga Ancestral de Bhárata/Índia, Desenvolvimento Pessoal, e Cidadania” não é sobre Yoga e não referiu qualquer fonte fiável na literatura védica (na qual assenta o Yoga). Baseou-se, antes, numa das muitas correntes personalistas sem qualquer base verídica e muito menos ancestral. O facto de ter havido um trabalho sobre uma balelice que usa a palavra ‘yoga’ só se explica, a meu ver, por esta moda recente das bolhas do ‘empreendendorismo’, do ‘mindfullness’, das ‘empresas cool’ que entram numa de evangelização com algo a que se chama yoga para vender. Schrödinger que teve a humildade intelectual suficiente para estudar os Vedas a sério e verificar a validade de muito do que lá vem, deve ter “dado voltas no túmulo” como se costuma dizer.

Por outro lado, também é verdade que qualquer técnica de yoga, que esteja referida na literatura original (vedas, hatha yoga pradipika, yoga sutras – com atenção às traduções – etc) já foi mais testada do que qualquer fármaco ou teoria científica. Segundo o último estudo, desde há aproximadamente 8000 anos. Ainda assim a Ciência, ou melhor, alguma ciência (já que esta é múltipla) continua a não atribuir validade aos vedas ou a essa mesma literatura. O que é normal porque existem diferentes tipos de validade, mas não vamos entrar em preciosismos epistemológicos neste texto.

Pessoalmente, não aceito tudo o que vem nos Vedas, mas sei que, no que respeita ao Yoga e suas técnicas, estas são válidas, com ou sem tubos de ensaio a prová-lo. Agora, quando a Ciência de massas ou a que tem o tubo de ensaio como deus único, decide pôr algo num dos seus fóruns, ao menos deveria ter o rigor que exige a outros sistemas de conhecimento quando decide falar desses mesmos sistemas. No caso, convém saber realmente o que é Yoga, para não dar banhos da cobra em Conferências nacionais com a dita “nata” da Ciência do burgo. Até porque se a intenção era inovar e mostrar um pouco de abertura epistemológica, podiam simplesmente ter explorado vários estudos científicos, por exemplo, dentro do tópico da relação da prática de yoga com a saúde física e mental. O Yoga não pretende ser Ciência, ainda que seja baseado num método e inclua técnicas. Mas mesmo o aspecto terapêutico do Yoga não promete curas. Propõe e pode proporcionar alívio de sintomas e uma maior capacidade de lidar com condições de saúde.

E só para que fique claro: em nenhuma literatura original, isto é, védica, do Yoga se diz que o Yoga cura cancros ou que não se devem tomar químicos. O Veda enquanto corpo de conhecimento tem um ensinamento central: eliminar o sofrimento humano. Não visa, portanto, eliminar ou promover mutações genéticas. Em nenhum sítio da literatura original do Yoga se diz o que foi dito nesta conferência do Ciência 2017.

Tristemente, isto aconteceu num dia com um dos simbolismos mais bonitos da tradição do Yoga: o dia de homenagem e de respeito e gratidão dos estudantes, aprendizes ou alunos, aos seus professores de yoga ou académicos.

Nota: A autora deste texto não assistiu à palestra apresentada no Ciência 2017, sendo este artigo baseado nos relatos presentes no artigo acima referido: https://www.publico.pt/2017/07/08/ciencia/noticia/o-ciencia-2017-voltou-depois-a-ciencia-1778184.

 

 

Ciência e translação: clausuras ou descobertas

“Truth and utility are the very same things”
Francis Bacon, New Organon, I, Aphorism 124

Ainda esperei uns dias, mas nada. Nenhuma reflexão um pouco mais a sério foi feita nos media portugueses sobre um dos eventos mais interessantes em termos de discursos e políticas sobre Ciência em Portugal nos últimos tempos: o lançamento oficial do centro europeu de investigação de excelência em medicina regenerativa e de precisão, com o nome oficial de The Discoveries Centre for Regenearative and Precision Medicine.

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O Discoveries visa criar em Portugal um novo centro de investigação de excelência e pretende focar-se em investigação nas áreas das doenças músculo-esqueléticas, neuro-degenerativas e cardiovasculares. Resulta de uma parceria entre cinco universidades portuguesas (Minho, Porto, Aveiro, Lisboa e Nova de Lisboa) e uma universidade líder mundial em Ciências e Tecnologias da Saúde, a University College London (UCL), do Reino Unido. Todas reúnem uma forte e reconhecida atividade nesta área de investigação. O projeto conta com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), coordenadora da proposta, e das Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regionais (CCDRs) do Norte, Centro e Lisboa e Vale do Tejo.

Claro que ainda se trata apenas de um lançamento, de um projecto com objectivos arrojados, mas também se trata de um dos maiores investimentos de dinheiros públicos em Ciência nos últimos anos. Para mim, foi um evento particularmente interessante do ponto de vista da sociologia da ciência. Nesta perspectiva, este texto analisa, muito sumariamente, o pontapé de saída oficial deste empreendimento no panorama científico português.

– Do panoptismo com nome de inovação

Tenho defendido que a vasta literatura sobre o modo-1 e modo- 2 de produção de conhecimento gerou mais prosa do que a fidelidade ao trabalho do autor dessa dicotomia queria significar. “Assim como no modo 1, o conhecimento foi acumulado através da profissionalização da especialização institucionalizada em grande parte nas universidades, no modo 2 o conhecimento é acumulado através da configuração repetida de recursos humanos em formas de organização flexíveis e essencialmente transitórias” (Gibbons et. Al, 1994, p. 9). Por mais tentador que fosse associar o Mode-1 com ‘ciência real’ e ‘ciência fiável’ e  o modo-2  com ciência pós académica, isso não pode ser assumido do que foi defendido por Gibbons. O que pode ser defendido é uma associação crescente entre o modelo de controlo burocrático weberiano e o panóptico de controlo foucaultiano.

Ora, o Panóptico era um edifício em forma de anel e, no meio desse anel, estava um pátio com uma torre no centro. O anel era formado por pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior. Em cada uma dessas pequenas celas, havia uma criança a aprender a escrever, um operário a trabalhar, um prisioneiro a ser corrigido, um louco a tentar fugir da sua loucura, etc. Na torre havia um vigilante. Cada cela dava ao mesmo tempo para o interior e para o exterior, pelo que o olhar do vigilante podia atravessar toda a cela. O panoptismo corresponde à observação total, é a tomada integral por parte do poder disciplinador da vida de um indivíduo.

No modus operandi actual da Ciência, nas últimas décadas, este panoptismo tem assumido um nome e uma função cada vez mais central:  a da investigação que aplica resultados de investigação básica à investigação clínica. No entanto, a definição de investigação translaccional também engloba o reverso da medalha: o reforço da investigação básica. O problema é que este reverso tem sido esquecido. Ficamos, então, com um lobby cada vez mais forte, o dos translational research offices ainda a tentarem saber o que são, ainda a debitar manuais de inovação e empreendedorismo, mas ainda com muito pouco interesse pela Ciência e pela investigação com as quais estabelecem uma relação do tipo sinfilia (relação ecológica em que se mantém em cativeiro indivíduos de outra espécie para obter vantagens.)

No exemplo que aqui hoje tratamos, o lançamento do Discoveries Centre, o grande vencedor na panóplia de discursos sobre este investimento de 25 milhões de euros (dos quais 15M provêm da Comissão Europeia e dez milhões das comissões coordenadoras do Norte, Centro e Lisboa e Sul do Tejo) é precisamente, não a investigação, mas a componente translacional do projecto. De tal forma, que antes de haver uma estratégia científica, uma discussão sobre a Ciência a fazer, sobre o perfil dos investigadores, das grandes questões tecnológicas e científicas, das dificuldades, já foram apresentadas as directrizes sobre a componente translaccional do projecto e já está criado um Discoveries Translational Office. Nada contra, mas não deixa de ser sintomático da tal sinfilia.

The Discoveries Centre

O caso do Discoveries ainda é mais interessante dado que inclui dois países com discursos sobre a Ciência que incluem diferenças significativas. Só para dar um exemplo: Portugal e Inglaterra são dois países muito diferentes no que respeita ao ‘lugar’ da investigação na vida académica e na vida em geral. Se na Inglaterra podemos encontrar, principalmente através de exercícios como o RAE e o REF, uma cristalização do discurso de centralização da investigação valiosa e útil, em Portugal tal discurso está muito longe de ser o dominante, embora possamos encontrar alguns sinais dessa valoração. No entanto, em ambos os países podemos encontrar a centralidade da avaliação na vida académica, sendo essa avaliação relacionada, principalmente, com a investigação.

É já indiscutível entre investigadores, industriais, gestores, etc, que as organizções devem tornar-se mais flexíveis. O elevado progresso tecnológico e científico é visto como o principal motivo para essa necessidade de uma maior adaptabilidade. Mas também sabemos que uma maior vontade para aceitar a mudança e conseguir essa maior flexibilidade organizacional são difíceis de alcançar devido os princípios ainda dominantes da maioria das organizações científicas e académicas: os princípios do controlo e da burocracia e não os da inovação e da mudança. E o que tem acontecido, tanto em empresas de grande dimensão como em grandes institutos de investigação é que se criam departamentos dedicados à inovação, transferência de tecnologia e translacção que se tornam essencialmente unidades burocráticas cujas competências são também exclusivamente burocráticas. Em instituições mais recentes e ainda em processo de afirmação de identidade, esta moralidade burocrática é agravada por uma maior dependência da direcção dessas instituições. Enquanto que numa instituição pública, como as universidades, as unidades de inovação ainda trabalham, até certa medida, em prol da instituição e de uma ideia de inovação muito mais directamente ligada à comunidade, nos outros casos, a actuação das unidades de inovação segue maioritariamente interesses individuais e personalistas.

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Em grandes organizações verificam-se ainda obstáculos persistentes à inovação e criatividade:

  1. A inércia de uma grande instituição;
  2. O poder restritivo de rotinas usadas e abusadas;
  3. A moralidade administrativa;
  4. A small talk que sustenta a tal organização panóptica encurta a capacidade de fazer algo com as novas ideias que surjam na organização. A própria dimensão de uma organização requer padronização e um sistema de controlo com pouco espaço a pensamentos divergentes e não-convencionais. E isso é visível frequentemente nas essenciais unidades de inovação e translacção, mas não só.
  5. Se a padronização e essa moralidade administrativa são levadas longe demais são sempre a criatividade científica e a inovação que perdem.
  6. Um conjunto de valores desactualizdo que favorece o controlo, a estabilidade inerte contra a mudança e flexibilidade.

O contexto

Ao olharmos para os sistemas de fusão na economia global do conhecimento, é clara a existência de uma diversidade de formas que emergiu de infraestruturas já existentes, mas que passaram a confundir tendências auxiliares com pilares fundamentais. Ou seja, assiste-se hoje, no panorama português e não só, a um revivalismos de relações colonialistas em formatos que desenvolvem o ‘neo-imperealismo’ na ciência baseados em sistemas de trocas de natureza essencialmente burocrática.

As universidades encorajam formas de colaboração internacional competitivas e não-competitivas que convivem com um recuo histórico no financiamento das instituições de ensino superior  e com a construção de parques de ciência baseados em spin-offs e em patentes. Uma questão fundamental é saber se os fundos angariados nessas formas de colaboração ditas competitivas serão usados para apoiar e subsidiar formas menos competitivas de colaboração e, por conseguinte, se as universidades vão ser capazes de acomodar dois discursos legitimizadores paralelos: o da justiça social e bem comum e as iniciativas com fins lucrativos.

Talvez os ‘sharable goods’ dependentes da tecnologia vistos como uma forma de troca e produção social, juntamente com o Estado e o mercado, façam emergir um terceiro modo de organização da produção científica que inclua um novo despertar da investigação básica e das formas não materiais da produção académica. Talvez depois dos três grandes momentos da história da Ciência – ciência clássica, ciência colonial e ciência global (Peters,2013), possa (re)surgir a ciência de ideias, materializando o que já tinha sido argumentado no UN Creative Economy Report 2008:

“In the contemporary world, a new development paradigm is emerging that links the economy and culture, embracing economic, cultural, technological and social aspects of development at both the macro and micro levels. Central to the new paradigm is the fact that creativity, knowledge and access to information are increasingly recognized as powerful engines driving economic growth and promoting development in a globalizing world. “Creativity” in this context refers to the formulation of new ideas and to the application of these ideas to produce original works of art and cultural products, functional creations, scientific inventions and technological innovations” (p.3).

Por tudo o que aqui ficou condensado neste texto, e muitas outras coisas, julgo que o The Discoveries Centre for Regenerative and Precision Medicine será um excelente estudo de caso na história e sociologia da Ciência em Portugal. Mas desejo, acima de tudo, que a ‘excelência’ que consta na definição e propósito deste projecto aconteça sobretudo na investigação científica e que seja esta a liderar as translações necessárias e pertinentes, ao invés de se subordinar a lobbies de ‘let me introduce myself’ e da ‘small talk’ da meldicência e da burocracia. Porque as descobertas só podem ser grandes.

Plasticidade do cérebro descrita em linguagem matemática

Estudo publicado na revista Neural Networks utilizou o modelo de Hodgkin e Huxley para simular a neuroplasticidade numa rede neuronal e verificou que uma configuração inicialmente simples pode evoluir para uma topologia bastante complexa na medida em que os neurónios mudam as suas conexões.

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Neurónios pré e pós-sinápticos, monstrando a região de acoplamento onde ocorre a sinapse. É possível verificar o sentido de propagação do sinal eléctrico entre os neurónios pré e pós-sinápticos. Figura produzida pelos investigadores, previamente publicada no artigo Sincronização de Disparos em Redes Neuronais com Plasticidade Sináptica”, na Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 37, n. 2, 2310 (2015): http://dx.doi.org/10.1590/S1806-11173721787.

Provavelmente já ouviu falar em neuroplasticidade. De facto, esta tornou-se uma das mais populares hipóteses, proposta no início do século XX por Rámon y Cajal, e actualizada em 1948 pelo psicólogo polaco Jerzy Konorski, quando se referiu às propriedades da excitabilidade e da plasticidade das células nervosas.

A  plasticidade é a capacidade que o cérebro tem em se reorganizar como resposta a novos estímulos sensoriais, aportes de informações, mudanças nos parâmetros ambientais ou danos na estrutura previamente estabelecida.

Actualmente, já existem muitas evidências relativas à plasticidade em sinapses químicas. Estas têm uma enorme capacidade para pequenas mudanças fisiológicas que aumentam ou reduzem a eficácia da sinapse. A plasticidade sináptica pode,pois, ser reforçada ou inibida – o que é particularmente relevante para eventuais aplicações médicas e para a compreensão de processos complexos como a aprendizagem ou a mudança de comportamentos.

O estudo agora publicado, conduzido por uma equipa de investigadores a trabalhar no Brasil e na Escócia, fez uma simulação computacional a partir do modelo de Hodgkin e Huxley, o mais famoso modelo matemático que simula a dinâmica dos neurónios. O trabalho considerou um conjunto de 200 neurónios, integrados numa rede com acoplamento global, isto é, cada neurónio estava conectado a todos os outros, por meio de sinapses excitatórias (80%) e inibitórias (20%). Sem considerar a plasticidade sináptica, não houve modificações significativas na rede após a evolução temporal. Porém, quando se introduziu um termo matemático característico nas equações, que representa a plasticidade sináptica, foram verificadas modificações substanciais.

O termo matemático mencionado representa o que é chamado de STDP, sigla composta pelas iniciais da expressão inglesa “spike timing-dependent plasticity”, que designa a plasticidade dependente do tempo de disparos entre os neurónios. Quando a STPD é inserida e se observa a evolução da rede, percebem-se modificações na matriz de acoplamento bem como efeitos consideráveis na sincronização ou dessincronização dos neurónios. A inserção do termo de plasticidade no modelo induziu uma nova topologia não trivial na rede. Todo este processo segue um padrão, conhecido como regra de Heeb [referência ao psicólogo canadense Donald Olding Hebb (1904 – 1985)], que determina quando as sinapses são intensificadas e quando são inibidas. A evolução topológica da rede depende, assim, da plasticidade: a topologia simples, de cada neurónio conectado com todos os outros, transforma-se em topologias bem mais complexas, com conexões esparsas, moderadas e densas.

Assim, o que este trabalho evidencia é a dependência da rede em relação à plasticidade sináptica. Partiu-se de uma condição de acoplamento global, com cada neurónio acoplado a todos os outros, com sinapses excitatórias ou inibitórias, e verificou-se que a inserção da plasticidade levou a diferentes diagnósticos do estado de sincronização da rede. Diz-se que dois neurónios estão sincronizados quando disparam os sinais eléctricos ao mesmo tempo. O estado de sincronização da rede é caracterizado por uma variável matemática denominada “parâmetro de ordem”, cujo valor varia de zero (quando não há nenhuma sincronização) a 1 (quando a sincronização é total). A plasticidade influi nesta sincronização ou ausência dela, pois induz modificações na rede neural, podendo reforçar as conexões entre determinados neurónios (sincronia) ou inibir as conexões entre outros (dessincronia).

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Ilustração de 11 vértices, com topologias: (a) global (com todos os vértices conectados) e (b) aleatória (com poucas arestas). Figura produzida pelos investigadores. 

A grande contribuição do trabalho foi descrever, em linguagem matemática, o processo biológico caracterizado pelo rearranjo das conexões neurais em função de uma grande variedade de factores: lesão, doença degenerativa, novas experiências, aprendizagens etc. Essa maleabilidade, essa dinâmica do sistema nervoso, é aquilo que se conhece como plasticidade – ou mais especificamente, a plasticidade sináptica.

O artigo “Spike timing-dependent plasticity induces non-trivial topology in the brain”, publicado na revista Neural Networks está disponível em http://dx.doi.org/10.1016/j.neunet.2017.01.010.

A arte do cérebro bonito

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Em 50 anos, Rámon y Cajal (1852-1934), considerado o pai da Neurociência moderna, fez 2900 desenhos neurológicos.  O livro The Beautiful Brain; the drawings of Santiago Ramón y Cajal, editado pela Abrams, apresenta 80 desses desenhos, alguns inéditos. Este é um livro que acompanha a exposição sobre a arte de Cajal organizada pelo Weisman Art Museum em colaboração com  Eric NewmanAlfonso Araque, e Janet Dubinsky, da University of Minnesota. A exposição, infelizmente, não vai passar por Portugal.

O El País dedica hoje um artigo a este livro e exposição, comparando Cajal com Leonardo Da Vinci, já que ambos eram amplamente dotados para a arte e Ciência. “Se considerarmos o cérebro como uma floresta e 100 mil milhões de árvores e nos dedicarmos vários anos a desenhar (ou fotografia) algumas centenas dessas árvores, nunca iremos entender a floresta. Ao desenhar, Cajal aconselha-nos a ‘construir um inventário mental de regras para a floresta’”, lê-se no artigo do El País.

Rámon y Cajal facultou muitas das primeiras evidências para a compreensão de que os neurónios são unidades sinalizadoras do sistema nervoso e de que cada neurónio é uma célula com processos distintos a emergir do seu corpo celular. Pode não parecer agora, mas esta não foi uma ideia fácil de passar à comunidade científica da época.  Ao contrário do que acontecia com outros tecidos, cujas células têm formas simples, as células nervosas assumem formas complexas; os padrões intricados das dendrites e o curso sem fim dos axónios tornam muito difícil estabelecer a relação entre estes elementos. Mesmo depois dos anatomistas Jacob Schleiden e Theodor Schwann avançarem com a teoria celular no início da década de 1930 – e que estabeleceu um dos maiores postulados da Biologia moderna, a de que as células são os tijolos básicos da matéria viva – muitos anatomistas  não aceitavam a aplicação da teoria celular ao cérebro, o qual era visto como um contínuo reticular.

Daí ter sido fundamental o contributo de Rámon y Cajal quando este começou a utilizar o  cromato de prata usado no Método de Golgi de coloração de neurónios para microscopia: o cromato de prata produzido precipita dentro dos neurónios e torna a sua morfologia visível.Rámon y Cajal aplicou este método a células nervosas embrionárias de muitos animais, incluindo humanos. Foi assim, que para além da doutrina do neurónio, Cajal defendeu dois outros princípios importantes para a organização neuronal que se tornaram fundamentais para o que se sabe sobre comunicação dentro do sistema nervoso: o princípio da polarização dinâmica, relacionado com o facto de que os neurónios partilham uma organização comum, a qual é ditada pela sua função — receber, processar e transmitir informação; e o segundo princípio é o da especificidade de ligação que afirma que as células nervosas não se ligam aleatoriamente.

Do medo à empatia: o longo processo da evolução humana

Psicologia e Neurociência mostram-nos como ainda estamos longe dessa capacidade que evita que nos tornemos psicopatas: a empatia.

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Quem estuda Ciências Sociais, já ouviu falar nas experiências de Milgram. Na verdade, estas foram uma série de experiências começadas em 1961 e a grande conclusão foi que a maioria das pessoas iria magoar deliberadamente outras pessoas – nomedamente dando choques eléctricos –sob as ordens de uma terceira pessoa. As experiências de Milgram tornaram-se uma das experiências mais conhecidas, na área da Psicologia, de todos os tempos.

Agora, mais de 50 anos depois, uma equipa de investigadores na Polónia repetiu a experiência e chegou aos mesmos resultados. “Ao saberem  sobre as experiências de Milgram, uma grande maioria das pessoas afirma que ‘nunca se comportaria daquela forma’”, disse um dos psicólogos, Tomasz Grzyb da Universidade de Ciências Sociais e Humanidades na Polónia. “O nosso estudo ilustrou, mais uma vez,  o tremendo poder das situações e contextos com que os sujeitos são confrontados  e como estes facilmente podem concordar com coisas que eles acham desagradáveis.”

As experiências de Milgram foram conduzidas pelo psicólogo da Universidade de Yale, Stanley Milgram e começaram em Julho de 1961, três meses após ter começado o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann. Milgram queria saber: “será que Eichmann e os seus milhões cúmplices no Holocausto se limitavam a seguir ordens?”

Para explorar isso, Milgram montou uma experiência onde voluntários, sob a autoridade de um experimentador, foram convidados a dar choques elétricos a uma pessoa numa sala ao lado, que podiam ouvir mas não ver, por cada vez que eles davam uma resposta errada. Haviam 30 botões que eles podiam pressionar cada um com uma voltagem diferente. Tanto quanto eles estavam cientes, os choques começaram com um valor inofensivo de 15 volts e iam aumentando até um valor perigoso de 450 volts. Os voluntários foram informados de que esse valor magoaria seriamente o destinatário. O que eles não sabiam era que a máquina não fazia nada além de produzir alguns efeitos assustadores de luz e som, e que a pessoa na outra sala  era um actor profissional que  tinha sido pago para gritar como se estivesse em sofrimento. Tudo isso era desconhecido para o voluntário, que acreditava estar realmente a magoar outra pessoa, mas foi-lhes dito pelo autor do estudo que eles precisavam continuar porque era crucial para a experiência. A variante mais famosa das experiências de Milgram mostrou que 65% dos 40 voluntários seguiu as ordens e foi até à voltagem de 450 volts, apesar dos gritos de dor e pedidos para párar da pessoa da outra sala. Algumas pessoas saíram e muitos protestaram contra a continuação da experiência, mas dois terços obedeceu às ordens e continuaram.

Nos anos seguintes, alguns investigadores argumentaram que a metodologia de Milgram era desleixada e que ele manipulou dados, mas têm sido repetidas variações dos testes por todo o mundo desde então, com resultados bastante consistentes e semelhantes à experiência original. Mas havia um único sítio onde essas experiências não tinham sido realizadas: a Europa central. “O nosso objectivo era examinar o quão alto seria o nível de obediência que encontramos entre moradores da Polónia,” escreveram Grzyb e a sua equipa na revista científica Social Psychological and Personality Science.

Nesta versão moderna da experiência, recrutaram-se 80 participantes (40 homens e 40 mulheres) com idades entre os 18 e os 69 anos. Tal como na experiência de Milgram, os voluntários foram incentivados por um examinador a dar choques a alguém que estava numa outra divisão, com mais intensidade por cada vez que obtivessem uma resposta errada. Disse-se aos voluntários que era importante continuarem a aumentar a intensidade dos choques eléctricos. Mas nesta versão actualizada, haviam apenas 10 botões com valores de voltagem mais baixos numa tentativa de tornar a experiência mais ética. No final, eles verificaram que 90 por cento dos voluntários seguiu ordens para infligir o maior nível de choques – muito semelhante à quantidade de pessoas que carregou no 10º botão aquando das experiências de Milgram.

“Meio século após a pesquisa original de Milgram sobre a obediência à autoridade, uma impressionante maioria dos sujeitos ainda estão dispostos a eletrocutar um indivíduo indefeso,” concluiu Grzyb.

Ora, claro que há uma série de factores a considerar quando se olha para estes resultados, como o pequeno tamanho da amostra, por exemplo. No entanto, se juntarmos estes dados com outra literatura científica, desde a ensaísta Hannah Arendt ao neurocientista Simon Baron-Cohen, vemos como a empatia tem sido e é um “recurso subaproveitado” apesar de ser “um dos recursos mais valiosos no nosso mundo”, como defende Baron-Cohen. Este investigador diz mais: a empatia é um solvente universal, pois qualquer problema imerso em empatia torna-se solúvel. É a forma efectiva de antecipar e resolver problemas interpessoais, conflitos internacionais, problemas no trabalho, dificuldades numa amizade, bloqueios políticos, disputas familiares ou desavenças entre vizinhos.

Do medo à empatia

Mas há uma outra dimensão a considerar: o medo. O medo é o maior dos males nesta época em que vivemos. Devido ao medo, sentimo-nos inseguros, desprotegidos e incapazes. E através dele, agimos de forma destrutiva, na tentativa de eliminar o que julgamos ameaçar-nos, resultando em sofrimento para os outros e para nós mesmos.

Ora, uma das coisas que Simon Baron-Cohen descobriu, e que explanou no seu livro A ciência do mal,  foi como funciona o reconhecimento das emoções, aquilo a que se chama de empatia.download

Empatia é a capacidade de reconhecer as emoções, pensamentos e sentimentos das pessoas, de espelhar essas emoções e de produzir uma resposta adequada ao que se está a ver. P.ex. conseguir ver se uma pessoa está triste ou alegre, se está a sofrer ou não. Mas a empatia não é só o reconhecimento das emoções.

O segundo factor da empatia é o espelhamento: pegamos numa emoção e trazemos essa emoção para nós mesmos. P.ex. vemos uma cena triste num filme e choramos.

Também um médico indiano, de Cambridge, descobriu quatro genes responsáveis pela empatia; há, então, também um terceiro factor, o genético.  Também sabemos que a primeira parte do cérebro a desenvolver-se é o reconhecimento facial das expressões humanas que ocupa quase 75% do hipocampo, na área da memória. O bebé começa a imitar as expressões que nós fazemos. O desenvolvimento normal desse processo conduz ao reconhecimento das emoções.

Todavia,  Simon Baron-Cohen descobriu que há uma relação directa entre empatia e crueldade. Quanto maior a empatia, menor a capacidade de cometer uma crueldade. Porque quando identifico o sofrimento de alguém, também sofro. Isto significa que somos geneticamente forjados para sermos empáticos. Tal como nos primatas, antes de sermos humanos, somos primatas. Simon começou, então, a medir os níveis de empatia.

Ora, para se ser considerado empático é necessário reconhecer, no minimo, 412 emoções em 2 sexos diferentes em pelo menos 3 “raças”. Então, vejamos o que Baron-Cohen nos diz: o psicopata tem ‘0’ empatia; num nível um pouco acima, estão as pessoas borderline, aquelas que são extremamente agressivas; num nível superior temos as pessoas que, quando alteradas emocionalmente, perdem o filtro e agridem. Um pouco mais acima ainda, estão as pessoas que não partem para a agressão física, mas fazem actos de crueldade verbal sem problema.

Susan Fisk, psicóloga, estudou as redes neurais e concluíu que temos uma rede neural para reconhecer objectos e outra para reconhecer seres humanos. Outro psiquiatra, Viktor Frankl, que perdeu toda a família em Auschwitz, citou um fenómeno recorrente na perda de sentido que ele encontrou em muitos dos estudantes que estudavam na Universidade de Yale, onde ele ensinou: a coisificação. A coisificação ocorre quando um ser humano se despe de todos os sentimentos, passando a considerar outro ser humano como um objecto. Philip Zimbardo corrobora que a coisificação é uma realidade neurológica quando, por algum motivo ideológico ou religioso, transformamos pessoas em objectos descartáveis. Uma forma de protecção é desligar. Coisas podem ser usadas, pessoas não. Por exemplo, imigrantes não são gente, ou terroristas árabes, ou refugiados, ou mendigos. Então, no momento em que intelectualmente afirmamos que eles não são gente, ma sim um objecto, nós mudamos a rede neural dos humanos para a rede neural que reconhece objectos. Então, quando ouço os gritos de dor de uma pessoa na sala ao lado, não sinto nada e posso continuar a aumentar a voltagem dos choques eléctricos só porque alguém me manda, como aconteceu nas experiências de Milgram e todas as versões das mesmas que já se fizeram.

Como era mesmo a propaganda nazista? “Não são pessoas….” Uma mentira repetida muitas vezes…

Link para o estudo com versão das experiências de Milgram na Polónia: http://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1948550617693060

 

 

A inferioridade mental da mulher

“A mulher não contribuiu com coisa alguma para o desenvolvimento da ciência e é inútil esperar algo dela no futuro”. Paul Julius Moebius

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A inferioridade mental das mulheres é o título do panfleto Über den physiologischen Schwachsinn des Weibes – sobre a imbecilidade fisiológica das mulheres – publicado em 1900 pelo psiquiatra e neurologista alemão Paul Julius Moebius (1853-1907).

Existe uma versão em espanhol publicada em 1982 pela editora Bruguera, traduzido por Adam Kovacsics Mészáros e com extensa introdução escrita por uma feminista italiana (escrita em 1977), Franca Ongaro Basaglia.

Há uma versão em Espanhol com tradução e prefácio de Carmen de Burgos (Ed. Sempere, 1904) que contém muitos comentários nos rodapés das página que refutam a tese de Moebius.

A doença neurológica chamada síndrome de Moebius deve o seu nome a Paul Julius Moebius, que trabalhou principalmente em neurofisiologia e endocrinologia. No entanto, em “A inferioridade mental das mulheres”, os seus argumentos científicos para demonstrar essa deficiência intelectual baseiam-se em outros autores da época e em estudos relacionados com o peso e as características do cérebro – certamente em comparação com os cérebros de “varões”.

Alguns dos argumentos usados por Moebius para provar a afirmação que intitula o panfleto provêm de estudos do médico e criminologista Cesare Lombroso (1835-1909) – e de sua filha, a médica e escritora, Gina Ferrero (1872-1944) – e das teorias do anatomista Nikolaus Rüdinger (1832-1896).

Eis algumas das considerações feitas por Moebius:

“Nos homens pouco desenvolvidos a nível mental  (um negro, por exemplo), encontran-se os mesmos dados anatómicos encontrados no lobo parietal da mulher”

“Em todos os sentidos está plenamente demonstrado que as mulheres têm  certas partes do cérebro de extrema importância para a vida mental menos desenvolvidas, tais como as circunvoluções do frontal e do lobo temporal; e que essa diferença existe desde o nascimento”.

“Uma das diferenças essenciais certamente é o facto de que o instinto desempenha um papel mais importante nas mulheres do que nos homens. […] Então o instinto faz com que a mulher seja semelhante a bestas, mas mais  dependentes, seguras e alegres”.

Todo o progresso parte do homem. Por isso, as mulheres são, para eles, um fardo pesado, pois impedem-nos de usar todos as suas capacidades intelectuais e de usar todas as suas energias em inovações temerárias. Elas também travam iniciativas nobres, porque não conseguem  distinguir o bem e o mal por si só e sujeitam tudo o que pensam e fazem ao que é habitual e ao “’que é dito pelas gentes’”.

1900, data da publicação deste panfleto, não foi assim há tanto tempo, pois não?

 

 

Em busca da Química da Vida

O trabalho de Zita Martins, astrobióloga e uma das oradoras do próximo TedEXOporto, procura “puxar os limites do sistema solar” à procura de provas e dados sobre a origem da vida na Terra e a existência de vida extra-terrestre.

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Zita Martins Foto: Miguel Fonta

É um pequeno passo na história da evolução da vida, mas um grande salto que fascina a astrobióloga, Zita Martins: como se vai do sistema solar para a existência dos primeiros organismos? Os mistérios em torno deste evento adensaram-se ainda mais quando alguns cientistas começaram a defender a existência de evidências geológicas de que a atmosfera da Terra, na altura, não correspondia ao descrito na sopa primordial, segundo a teoria de Miller e Urey, de 1953. Mas o assunto é polémico e Zita Martins investiga precisamente sobre uma das questões que mais tem intrigado ao longo de séculos da Humanidade: Como surgiu a vida como a conhecemos?

Causa primária de todas as coisas?

Sobre a famosa hipótese de ter sido Deus ou uma causa primária a criar o universo, Zita Martins é peremptória: “Não há qualquer facto que justifique a tese de que existe uma causa primária inteligente. Cada um pode acreditar no que quiser. Mas os factos e os dados de laboratório não apontam para a existência de qualquer princípio inteligente que esteja na origem da vida na Terra”. Tentámos fazer a pergunta de várias maneiras. Porém, as respostas eram sempre inequívocas: “os factos dizem que esse princípio não existe; o resto fica no domínio da crença. Até os padres-cientistas do Vaticano não falam em Deus quando estão a apresentar as suas pesquisas”. Foi uma resposta cautelosa e acertada, tendo em vista a definição de facto científico. Um facto científico, seja nas chamadas ciências naturais (química, biologia, matemática, física, etc.) seja nas ciências sociais (comunicação, sociologia, educação, etc.) é uma observação que foi repetidamente confirmada e que, por isso, é aceite como verdade. No entanto, em Ciência, a verdade nunca é a Verdade, nunca é definitiva e, como defendeu o filósofo Karl Popper, é refutável.  Neste sentido, a resposta da cientista é correcta, pois um facto, em Ciência, remete ou para uma observação ou para algum tipo de medida ou para uma explicação científica que foi testada muitas vezes sob as mesmas circunstâncias. Já uma teoria, no senso comum, é um palpite ou especulação. Para a Ciência, uma teoria é uma explicação abrangente sobre algum aspecto da natureza que é suportada por um vasto corpo de evidências. Por exemplo, a teoria heliocêntrica que defende ser a Terra a girar à volta do Sol é uma das teorias cujas evidências em que se baseia são tão fortes e numerosas que dificilmente cairá. No entanto, vale a pena ver o que Rupert Sheldrake, biólogo e autor do livro Biologia da crença, diz sobre factos científicos: “Os factos da ciência são reais como são as técnicas usadas pelos cientistas; também são reais as tecnologias na base dessas técnicas. Contudo, o sistema de crenças que governa o pensamento científico convencional é um acto de fé e de crença”.

Follow the water

Quer seja a teoria da sopa primordial quer a teoria exógena, ou seja, aquela que afirma que os constituintes básicos chegaram ao nosso planeta através de meteoritos que o bombardearam, a astrobióloga considera que ambas as teorias são plausíveis. Mas reconhece que pelo facto de não se ter, até agora, conseguido reproduzir a experiência de Miller, a teoria exógena está a levar vantagem. Mas a verdade é que, alerta a investigadora, “podemos arranjar provas e dados, mas vamos continuar a não saber, com toda a certeza, se essa é a forma como a vida surgiu”.

Outra dificuldade é saber o que se entende, afinal, por vida. Mas também aí Zita Martins é rápida a responder: “Não me interessam as definições”. Mas intetressa-lhe um elemento: o carbono, ou não fosse a cientista licenciada em Química. E é com a mira no carbono que Zita Martins procura métodos de detecção que permitam encontrar vestígios de vida em meteoritos caídos na Terra ou na superfície de Marte. Porquê este interesse no carbono? Porque este elemento é o mais frequente no universo e tem formas de ligações estáveis. O carbono é, pois, a pista para saber em que locais do sistema solar a vida pode ter existido.

A grande aposta de Zita para um local no universo onde possa existir vida são as luas geladas de Júpiter e Saturno, planetas com muitas camadas de gelo, mas com um ocenao líquido.

Já sobre o presente e futuro da Astrobiologia em Portugal, Zita Martins diz que há ainda alguma “falta de visão” para que esta área de investigação se estabeleça em Portugal e ela está aberta a essa possibilidade.

As regras da Biologia

Não sendo uma panaceia, as regras de Serengeti, segundo Sean B. Carroll, são um pilar fundamental da Biologia do futuro. 

A complexidade atrai-nos e assusta-nos. Por isso, tende-se sempre a tentar controlar essa mesma complexidade tentando desvendar os padrões que a caracterizam e as leis que a possam reger.

E se a Biologia se tornasse tão previsível como uma fórmula matemática? E será que essa mesma Biologia nos pode ajudar a acabar com a fome no mundo, a inverter o ritmo de degradação dos ecossistemas, das alterações climáticas e da extinção de espécies? Estas são as principais perguntas que o biólogo Sean Carroll tenta responder em The Serengeti Rules: the quest to discover how life works and why it matters.k10661

Nas últimas duas décadas, os cientistas que estudam os sistemas de relações ecológicas predador-presa têm argumentado que quase tudo nessas relações se encerra numa complexa rede de interacções. A base dos seus argumentos tem sido, essencialmente, feita de estudos sobre os caminhos bioquímicos numa célula, nas próprias interacções predador-presa ou até nos efeitos de cascata de genes num fenótipo. Mas quando se fala em redes, como a Sociologia mostra, não basta afirmar que elas existem e caracterizá-las; é preciso também perceber os mecanismos de resiliência que nelas existem.

Carroll vai, por isso, além da analogia das redes, pois acredita firmemente que a Biologia é demasiado complexa para ser explicada em termos de generalizações ou de predições. Este livro de Carroll é basicamente sobre a tão debatida questão da unificação na Biologia, já na senda dos trabalhos de Charles Darwin, James Watson e Francis Crick.

Mais: Carroll encontra um denominador comum em descobertas nas áreas da fisiologia, anatomia, regulação génica e cancro e analisa os trabalhos do Nobel Jacques Monod, Janet Rowley e de ecologistas como Tony Sinclair. O autor argumenta que, em todas as escalas de organização, a Biologia é regulada por axiomas de interacção em redes – desde o número de moléculas no nosso corpo ao número de espécies de animais e plantas dentro e entre ecossistemas. Depois de ter identificado as peças, junta-as novamente para definir regras de regulação – as Serengeti rules – que, segundo ele, são aplicáveis quer para a recuperação de ecossistemas quer para a gestão da biosfera.

O curioso é que uma mesma regra por ter diferentes nomes dependendo do contexto biológico. Por exemplo: a regra da lógica duplamente negativa responsável pelo abrandamento da síntese de um gene, num contexto de um ecossistema, chama-se regulação top-down que ocorre quando a abundância do número de predadores limita o crescimento da população de presas desse predador.

Outro argumento interessante de Carroll é que as regras que regulam as funções do corpo humano podem ser aplicadas em ecossistemas, em termos da conservação e recuperação dos mesmos.

Por último, mas não menos relevante, este livro não deixa de ser uma homenagem à Ecologia e a Charles Elton, que ajudou a definir a ecologia como o estudo das interacções entre espécies numa rede trófica (ou teia alimentar) modelada pelo ambiente.

A crise de identidade das células da glia

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Estudo descreve como a expressão génica em regiões diferentes do cérebro humano é alterada com a idade.

Durante muito tempo, os vilões principais das doenças neurodegenerativas foram os neurónios. E também durante muito tempo, sobretudo na última década do século XX, os heróis na ciência que se faz sobre o cérebro eram esses mesmos neurónios.

Mas parece que agora os holofotes começam a virar-se para um outro tipo de células do tecido nervoso: as células da glia que são bem diferentes dos neurónios, pois não se activam por estímulos eléctricos ou químicos e não transmitem estímulos ao longo dos seus prolongamentos. Podia até dizer-se que por detrás de um grande neurónio, está sempre uma grande glia 🙂

Para além dos neurónios e, mais recentemente, da glia, os cientistas têm também estado atentos aos mapas de expressão génica em função da estrutura cerebral. Estes mapas são fundamentais porque os genes só podem funcionar se forem expressos. Por isso, as mudanças da expressão genética no cérebro ao longo do tempo têm suscitado bastante interesse.

Para aprender o que acontece no cérebro com o envelhecimento, investigadores examinaram os padrões de expressão génica em amostras de cérebro após a morte (apesar da slimitações práticas e científicas deste tipo de amostras).

Em geral, os investigadores verificaram que a expressão génica nas células glia mudou mais com a idade do que a dos neurónios. Estas mudanças de expressão génica foram mais significativas no hipocampo e na substância negra, regiões tipicamente danificadas em doenças como a de Alzheimer e de Parkinson. Este estudo foi publicado esta semana no Cell Reports.

Em suma, o que o artigo aponta é que, quanto ao estudo de demências, o foco não deve estar apenas nos neurónios, mas também nas células da glia, já que estas são sujeitas a mudanças de expressão genética bem mais numerosas do que os neurónios.

A importância deste estudo está mais no facto de haver bastantes incertezas quanto às alterações sofridas pelas populações de células da neuroglia à medida que o cérebro envelhece. A expressão de genes específicos das células da glia mostrou ser um melhor preditor de idade do que a dos neurónios e confirmou a importância das células não-neuronais no processo de envelhecimento.

Com o envelhecimento, os padrões de expressão genética das células gliais em regiões diferentes do cérebro tornam-se cada vez mais semelhantes, como se as células gliais fossem perdendo as suas características distintivas. Ou seja, quando envelhecemos parece que as nossas células da glia entram em crise de identidade. Um pouco como no poema de Mia Couto: “Os outros de mim,/fingindo desconhecer a imagem,/deixaram-me a sós, perplexo,/com meu súbito reflexo.// A idade é isto: o peso da luz/com que nos vemos”. (in Idades Cidades Divindades).

A saber:

– As células da glia são essenciais para o funcionamento do sistema nervoso;

– As células da neuroglia estão presentes no sistema nervoso central. No sistema nervoso periférico há células equivalentes, que alguns autores incluem na classificação de células da neuróglia e outros consideram como uma categoria separada;

– Há várias populações de células da neuroglia no sistema nervoso central: a astroglia (composta essencilamente por astrócitos), oligodendroglia (composta por oligodendrócitos) e a microglia (o forte do nosso sistema nervoso, já que estas células actuam na defesa do tecido nervoso).

– No sistema nervso periférico, temos as células Schwann.

–  As células Schwann e os oligodendrócitos envolvem os neurónios com uma bainha chamada de mielina.

Referência: L. Soreq et al., “Major shifts in glial regional identity are a transcriptional hallmark of human brain aging,” Cell Reports, doi:10.1016/j.celrep.2016.12.011, 2017.

Revelada história genética do cacau do Brasil

O que sabe dos chocolates que come? Investigadores avaliam estrutura genética e diversidade das variedades do cacau da Bahia e identificam árvores resistentes à praga que nos privou de um dos melhores cacaus do mundo. Mas a saga continua.

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Variedades genéticas do Cacau da Bahia

Lembra-se da fraseforasteiro sem raiz na terra”? Era assim que o escritor Jorge Amado se referia às pessoas que moravam em Ilhéus, mas não se dedicaram ao cultivo do cacau. Isto mostra o quanto a saga do cacau no sul da Bahia está intrincada na história económica e cultural do Brasil. E se não fosse esse mesmo cacau, o escritor não se teria inspirado para a sua Gabriela, cravo e canela. Um dia, muitos anos antes, quando a floresta cobria muito mais terra, quando se estendia em todas as direções, quando os homens ainda não pensavam em derrubar as árvores para plantar a árvore do cacau que todavia não chegara da Amazónia”, lê-se no conhecido romance.

Mas os tempos da Gabriela já acabaram há muito e tudo por culpa do fungo Moniliophtora perniciosa, que transmite a doença da vassoura-de-bruxa. A praga apareceu na região de Ilhéus-Itabuna em 1989 e alastrou-se tanto que afectou os frutos, os brotos e as flores dos cacaueiros. Por isso, o Brasil passou do segundo maior exportador mundial de cacau para o sexto.

As árvores deixaram de dar frutos. A produção brasileira, que era de 320 mil toneladas por ano, caíu para 190 mil toneladas anuais em 1991. Tudo isto devido à queda do cacau baiano. Só a Bahia concentrava 80% da produção de cacau.

Não se baixaram os braços e, nas últimas duas décadas, muitos esforços têm sido feitos para o combate à praga vassoura-de-bruxa, sobretudo tentando identificar novas variedades de cacau resistentes à praga, pois o fungo continua presente no sul da Bahia.

Um desses estudos, agora publicado na Plos One, descreve a estrutura genética e a diversidade molecular do assim chamado “cacau da Bahia”. O estudo é liderado por Anete Pereira de Souza, do Instituto de Biologia e do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Universidade Estadual de Campinas.

Para entender a razão genética para a extrema susceptibilidade do cacau da Bahia à vassoura-de-bruxa, Souza e a sua doutoranda Elisa Santos, da Universidade Estadual do Sudeste da Bahia, recolheram 219 amostras de folhas de cacaueiros em sete fazendas, assim como outras 51 amostras de híbridos desenvolvidos ao longo de décadas no Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec/Ceplac), de Ilhéus. Depois sequenciaram o DNA nuclear das 270 amostras, focando a sua análise em 30 marcadores moleculares – pequenos pedacinhos de DNA que servem de parâmetro de comparação entre as variedades. O que se descobriu foi que a base genética do cacau da Bahia é muito estreita. Literalmente todos os cacaueiros baianos têm a sua origem num número muito pequeno de indivíduos, ou seja, de sementes da variedade Forastero. É que essas sementes foram muito bem escolhidas pela qualidade do cacau produzido pelas árvores que lhes deram origem. Entre essas sementes estão as que foram trazidas por Warneau há 270 anos. Se, por um lado, a reduzida diversidade genética das plantas garantia a qualidade do fruto, por outro tornava toda a população de cacaueiros frágil, dada a ausência de variedades que podiam resistir a uma ameaça como a vassoura-de-bruxa.

Para piorar a situação, os investigadores descobriram que os híbridos desenvolvidos pelo centro de melhoramento nos anos 1950 e 1960 (e cultivados até hoje), em vez de aumentarem a variação genética na população cacaueira, acabaram por a reduzir ainda mais, já que também foram produzidos com base apenas na qualidade do cacau.

Mas nem tudo foi mau. Durante o estudo, identificaram-se também árvores resistentes à doença e com maior variação genética que aquela encontrada nos híbridos atualmente existentes. Ainda há esperança, portanto, para o cacau da Bahia.

O artigo Genetic Structure and Molecular Diversity of Cacao Plants Established as Local Varieties for More than Two Centuries: The Genetic History of Cacao Plantations in Bahia, Brazil (doi: http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0145276), de Elisa S. L. Santos, Carlos Bernard M. Cerqueira-Silva, Gustavo M. Mori, Dário Ahnert, Durval L. N. Mello, José Luis Pires, Ronan X. Corrêa, Anete P. de Souza, pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0145276.