Divulgação #7 II Encontro em Biotecnologia Medicinal

 II Encontro em Biotecnologia Medicinal

Na sequência do I Encontro de Biotecnologia Medicinal, essencialmente destinado a receber os primeiros Estudantes e à divulgação do único curso de Licenciatura em Biotecnologia da Saúde em Portugal e que é da responsabilidade da Escola Superior de Saúde (ESS) do P.Porto, estamos agora a organizar o II Encontro em continuidade.

Este II Encontro de Biotecnologia Medicinal, terá lugar no Auditório Magno da ESS a 19 de Maio de 2017.

O Programa baseia-se em dois eixos principais, a Biotecnologia na Saúde e nas Empresas.

Esperamos que este Encontro possa contribuir para o desenvolvimento de contactos, projectos e colaborações e constitua uma oportunidade para uma discussão frutífera em prol da Biotecnologia da Saúde e seu futuro.

Convidamos à submissão de resumos para apresentação de Posters e Comunicações Orais até 12 de Maio (ver instruções).

A inscrição simbólica (5 euros) poderá ser efetuada até 17 de Maio. 

Clique aqui para efectuar a inscrição.

A Comissão Organizadora do II Encontro de Biotecnologia Medicinal

Inscriçõeshttp://paginas.estsp.ipp.pt/formacoes/principal/home/index.php?page=verForm&id=583

Facebook: https://www.facebook.com/Biotecnologia-Medicinal-1612472429009008/

Evento: https://www.facebook.com/IIencontrobiotecnologiamedicinal

https://www.ess.ipp.pt/como-chegar-a-essLocalização: 

Vida no leito das profundezas

O solo do fundo do mar ocupa 151 milhões de quilómetros quadrados da superfície da Terra. Isto representa 41 % dos oceanos da Terra e 29,5% da superfície do planeta. A maioria desta enorme extensão está coberta por excelentes sedimentos macios, acumulados em milhões de anos. Os depósitos do oceano consistem em biliões de conchas de organismos microscópicos, calcários e  sílica, e também partículas provenientes de erosão da terra. Há também pequenos fragmentos meteoríticos, chamados microtequites, nos sedimentos do fundo. As condições nas profundezas têm sido resumidas como profundas, negras, frias e com pouca comida. Esta restrição de suprimento alimentar e das temperaturas baixas provocam crescimento lento dos organismos-

A superfÍcie macia de sedimentos nas profundezas torna difícil os habitantes de superfícies grandes moverem-se nelas sem se afundarem, ou terem de usar muita energia quando tentam deslocar-se. A necessidade de poupar energia, para crescer e reproduzir-se. é uma pressão evolucionária forte num ambiente com escassez de comida.

Para sobreviver a estas condições, os seres vivos desenvolvem modificações nos seus organismos que passam por adaptações nos órgãos sensoriais, na cor ou na forma.

Órgãos sensoriais

É um paradoxo que na escuridão das profundezas, muitos animais tenham olhos com complexidade e sensibilidade extremas, para detectarem luminosidade muito fraca da superfície e ocasionalmente emissões de bioluminescência. Muitos animais têm também sentido olfactivo muito desenvolvido para detectar comida, ou companheiros. Os sentidos do tacto e do ouvido estão separados nos vertebrados terrestres, como os humanos, mas esta distinção é menos clara nas profundidades. Aqui, a água é, de longe melhor transmissor da pressão de ondas de frequência baixa do que o ar. O que designamos como sentido auditivo é, em muitos animais do fundo do mar, o sentido do tacto: eles detectam vibrações de outros animais. Muitos invertebrados ouvem usando pêlos ou antenas, e nos peixes as funções do sistema de “linha lateral” são como o nosso ouvido: pêlos sensoriais transformam movimentos microscópicos em impulsos nervosos. Muitos peixes produzem sons e assim podem também processar um sentido de audição tal como a compreendemos.

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“Jelly-fish” na Fossa das Marianas (imagem retirada do eco4u

Cor

Os tipos de coloração dos animais das profundezas são uma resposta à necessidade de camuflagem, estratégia para caçar ou para evitar ser caçado. A cor serve muitas vezes para o animal se confundir como o meio circundante, de modo a não ser notado. Há frequentemente uma luz ambiente residual na zona mesopelágica superior do fundo do mar. É aqui que as alforrecas, os camarões e os peixes-pinha se encontram em vários graus de transparência. A cor muda de modo muito marcado nas partes profundas da região mesopelágica. Os peixes tornam-se prateados ou, nos níveis mais baixos desta região, negro-aveludado, para absorver o que de luz fraca possa estar presente. Nesta região, os invertebrados são tipicamente de cor laranja e vermelho, que pode ser parcialmente consequência de uma dieta rica em pigmentos vermelho e laranja. A luz vermelha está completamente ausente nessas profundidades, pelo que parecem negros ou cinzentos, quando iluminados pela luz azul ténue que penetra até esse fundo distante. Como não há luz na parte mais profunda do oceano,além da bioluminescência, a maioria dos animais não tem coloração forte.

Forma

Os peixes são um dos grupos principais de animais das profundezas e apresentam algumas das diferenças maiores de formas do corpo quando comparados como parente de águas baixas. Isto é possivelmente, uma consequência da escassez de comida e das estratégias que os peixes desenvolveram para lidar com ela. A perseguição ativa neste ambiente é energeticamente dispendiosa e, assim, a maioria dos peixes são predadores emboscados, movimentando-se muito pouco. Isto significa que os seus corpos não precisam de ser hidrodinamicamente eficientes. Podem ser grossos ou finos, longos ou curtos, com musculatura reduzida. A carne dos peixes de fundo é mole e aguada em comparação com a das espécies de águas baixas, o que é devido à falta de fibras musculares. Têm bocas grandes e dentes aguçados para assegurar que, nas ocasiões raras em que a presa é encontrada, não possa escapar.

É neste mundo escuro e frio, que começa cerca dos 200 m abaixo da superfície, que encontramos formas de vida que evoluíram em condições muito diferentes das que contactamos à superfície e a partir da quais podermos compreender melhor a vida no leito das profundezas.

A arte do cérebro bonito

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Em 50 anos, Rámon y Cajal (1852-1934), considerado o pai da Neurociência moderna, fez 2900 desenhos neurológicos.  O livro The Beautiful Brain; the drawings of Santiago Ramón y Cajal, editado pela Abrams, apresenta 80 desses desenhos, alguns inéditos. Este é um livro que acompanha a exposição sobre a arte de Cajal organizada pelo Weisman Art Museum em colaboração com  Eric NewmanAlfonso Araque, e Janet Dubinsky, da University of Minnesota. A exposição, infelizmente, não vai passar por Portugal.

O El País dedica hoje um artigo a este livro e exposição, comparando Cajal com Leonardo Da Vinci, já que ambos eram amplamente dotados para a arte e Ciência. “Se considerarmos o cérebro como uma floresta e 100 mil milhões de árvores e nos dedicarmos vários anos a desenhar (ou fotografia) algumas centenas dessas árvores, nunca iremos entender a floresta. Ao desenhar, Cajal aconselha-nos a ‘construir um inventário mental de regras para a floresta’”, lê-se no artigo do El País.

Rámon y Cajal facultou muitas das primeiras evidências para a compreensão de que os neurónios são unidades sinalizadoras do sistema nervoso e de que cada neurónio é uma célula com processos distintos a emergir do seu corpo celular. Pode não parecer agora, mas esta não foi uma ideia fácil de passar à comunidade científica da época.  Ao contrário do que acontecia com outros tecidos, cujas células têm formas simples, as células nervosas assumem formas complexas; os padrões intricados das dendrites e o curso sem fim dos axónios tornam muito difícil estabelecer a relação entre estes elementos. Mesmo depois dos anatomistas Jacob Schleiden e Theodor Schwann avançarem com a teoria celular no início da década de 1930 – e que estabeleceu um dos maiores postulados da Biologia moderna, a de que as células são os tijolos básicos da matéria viva – muitos anatomistas  não aceitavam a aplicação da teoria celular ao cérebro, o qual era visto como um contínuo reticular.

Daí ter sido fundamental o contributo de Rámon y Cajal quando este começou a utilizar o  cromato de prata usado no Método de Golgi de coloração de neurónios para microscopia: o cromato de prata produzido precipita dentro dos neurónios e torna a sua morfologia visível.Rámon y Cajal aplicou este método a células nervosas embrionárias de muitos animais, incluindo humanos. Foi assim, que para além da doutrina do neurónio, Cajal defendeu dois outros princípios importantes para a organização neuronal que se tornaram fundamentais para o que se sabe sobre comunicação dentro do sistema nervoso: o princípio da polarização dinâmica, relacionado com o facto de que os neurónios partilham uma organização comum, a qual é ditada pela sua função — receber, processar e transmitir informação; e o segundo princípio é o da especificidade de ligação que afirma que as células nervosas não se ligam aleatoriamente.

Do medo à empatia: o longo processo da evolução humana

Psicologia e Neurociência mostram-nos como ainda estamos longe dessa capacidade que evita que nos tornemos psicopatas: a empatia.

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Quem estuda Ciências Sociais, já ouviu falar nas experiências de Milgram. Na verdade, estas foram uma série de experiências começadas em 1961 e a grande conclusão foi que a maioria das pessoas iria magoar deliberadamente outras pessoas – nomedamente dando choques eléctricos –sob as ordens de uma terceira pessoa. As experiências de Milgram tornaram-se uma das experiências mais conhecidas, na área da Psicologia, de todos os tempos.

Agora, mais de 50 anos depois, uma equipa de investigadores na Polónia repetiu a experiência e chegou aos mesmos resultados. “Ao saberem  sobre as experiências de Milgram, uma grande maioria das pessoas afirma que ‘nunca se comportaria daquela forma’”, disse um dos psicólogos, Tomasz Grzyb da Universidade de Ciências Sociais e Humanidades na Polónia. “O nosso estudo ilustrou, mais uma vez,  o tremendo poder das situações e contextos com que os sujeitos são confrontados  e como estes facilmente podem concordar com coisas que eles acham desagradáveis.”

As experiências de Milgram foram conduzidas pelo psicólogo da Universidade de Yale, Stanley Milgram e começaram em Julho de 1961, três meses após ter começado o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann. Milgram queria saber: “será que Eichmann e os seus milhões cúmplices no Holocausto se limitavam a seguir ordens?”

Para explorar isso, Milgram montou uma experiência onde voluntários, sob a autoridade de um experimentador, foram convidados a dar choques elétricos a uma pessoa numa sala ao lado, que podiam ouvir mas não ver, por cada vez que eles davam uma resposta errada. Haviam 30 botões que eles podiam pressionar cada um com uma voltagem diferente. Tanto quanto eles estavam cientes, os choques começaram com um valor inofensivo de 15 volts e iam aumentando até um valor perigoso de 450 volts. Os voluntários foram informados de que esse valor magoaria seriamente o destinatário. O que eles não sabiam era que a máquina não fazia nada além de produzir alguns efeitos assustadores de luz e som, e que a pessoa na outra sala  era um actor profissional que  tinha sido pago para gritar como se estivesse em sofrimento. Tudo isso era desconhecido para o voluntário, que acreditava estar realmente a magoar outra pessoa, mas foi-lhes dito pelo autor do estudo que eles precisavam continuar porque era crucial para a experiência. A variante mais famosa das experiências de Milgram mostrou que 65% dos 40 voluntários seguiu as ordens e foi até à voltagem de 450 volts, apesar dos gritos de dor e pedidos para párar da pessoa da outra sala. Algumas pessoas saíram e muitos protestaram contra a continuação da experiência, mas dois terços obedeceu às ordens e continuaram.

Nos anos seguintes, alguns investigadores argumentaram que a metodologia de Milgram era desleixada e que ele manipulou dados, mas têm sido repetidas variações dos testes por todo o mundo desde então, com resultados bastante consistentes e semelhantes à experiência original. Mas havia um único sítio onde essas experiências não tinham sido realizadas: a Europa central. “O nosso objectivo era examinar o quão alto seria o nível de obediência que encontramos entre moradores da Polónia,” escreveram Grzyb e a sua equipa na revista científica Social Psychological and Personality Science.

Nesta versão moderna da experiência, recrutaram-se 80 participantes (40 homens e 40 mulheres) com idades entre os 18 e os 69 anos. Tal como na experiência de Milgram, os voluntários foram incentivados por um examinador a dar choques a alguém que estava numa outra divisão, com mais intensidade por cada vez que obtivessem uma resposta errada. Disse-se aos voluntários que era importante continuarem a aumentar a intensidade dos choques eléctricos. Mas nesta versão actualizada, haviam apenas 10 botões com valores de voltagem mais baixos numa tentativa de tornar a experiência mais ética. No final, eles verificaram que 90 por cento dos voluntários seguiu ordens para infligir o maior nível de choques – muito semelhante à quantidade de pessoas que carregou no 10º botão aquando das experiências de Milgram.

“Meio século após a pesquisa original de Milgram sobre a obediência à autoridade, uma impressionante maioria dos sujeitos ainda estão dispostos a eletrocutar um indivíduo indefeso,” concluiu Grzyb.

Ora, claro que há uma série de factores a considerar quando se olha para estes resultados, como o pequeno tamanho da amostra, por exemplo. No entanto, se juntarmos estes dados com outra literatura científica, desde a ensaísta Hannah Arendt ao neurocientista Simon Baron-Cohen, vemos como a empatia tem sido e é um “recurso subaproveitado” apesar de ser “um dos recursos mais valiosos no nosso mundo”, como defende Baron-Cohen. Este investigador diz mais: a empatia é um solvente universal, pois qualquer problema imerso em empatia torna-se solúvel. É a forma efectiva de antecipar e resolver problemas interpessoais, conflitos internacionais, problemas no trabalho, dificuldades numa amizade, bloqueios políticos, disputas familiares ou desavenças entre vizinhos.

Do medo à empatia

Mas há uma outra dimensão a considerar: o medo. O medo é o maior dos males nesta época em que vivemos. Devido ao medo, sentimo-nos inseguros, desprotegidos e incapazes. E através dele, agimos de forma destrutiva, na tentativa de eliminar o que julgamos ameaçar-nos, resultando em sofrimento para os outros e para nós mesmos.

Ora, uma das coisas que Simon Baron-Cohen descobriu, e que explanou no seu livro A ciência do mal,  foi como funciona o reconhecimento das emoções, aquilo a que se chama de empatia.download

Empatia é a capacidade de reconhecer as emoções, pensamentos e sentimentos das pessoas, de espelhar essas emoções e de produzir uma resposta adequada ao que se está a ver. P.ex. conseguir ver se uma pessoa está triste ou alegre, se está a sofrer ou não. Mas a empatia não é só o reconhecimento das emoções.

O segundo factor da empatia é o espelhamento: pegamos numa emoção e trazemos essa emoção para nós mesmos. P.ex. vemos uma cena triste num filme e choramos.

Também um médico indiano, de Cambridge, descobriu quatro genes responsáveis pela empatia; há, então, também um terceiro factor, o genético.  Também sabemos que a primeira parte do cérebro a desenvolver-se é o reconhecimento facial das expressões humanas que ocupa quase 75% do hipocampo, na área da memória. O bebé começa a imitar as expressões que nós fazemos. O desenvolvimento normal desse processo conduz ao reconhecimento das emoções.

Todavia,  Simon Baron-Cohen descobriu que há uma relação directa entre empatia e crueldade. Quanto maior a empatia, menor a capacidade de cometer uma crueldade. Porque quando identifico o sofrimento de alguém, também sofro. Isto significa que somos geneticamente forjados para sermos empáticos. Tal como nos primatas, antes de sermos humanos, somos primatas. Simon começou, então, a medir os níveis de empatia.

Ora, para se ser considerado empático é necessário reconhecer, no minimo, 412 emoções em 2 sexos diferentes em pelo menos 3 “raças”. Então, vejamos o que Baron-Cohen nos diz: o psicopata tem ‘0’ empatia; num nível um pouco acima, estão as pessoas borderline, aquelas que são extremamente agressivas; num nível superior temos as pessoas que, quando alteradas emocionalmente, perdem o filtro e agridem. Um pouco mais acima ainda, estão as pessoas que não partem para a agressão física, mas fazem actos de crueldade verbal sem problema.

Susan Fisk, psicóloga, estudou as redes neurais e concluíu que temos uma rede neural para reconhecer objectos e outra para reconhecer seres humanos. Outro psiquiatra, Viktor Frankl, que perdeu toda a família em Auschwitz, citou um fenómeno recorrente na perda de sentido que ele encontrou em muitos dos estudantes que estudavam na Universidade de Yale, onde ele ensinou: a coisificação. A coisificação ocorre quando um ser humano se despe de todos os sentimentos, passando a considerar outro ser humano como um objecto. Philip Zimbardo corrobora que a coisificação é uma realidade neurológica quando, por algum motivo ideológico ou religioso, transformamos pessoas em objectos descartáveis. Uma forma de protecção é desligar. Coisas podem ser usadas, pessoas não. Por exemplo, imigrantes não são gente, ou terroristas árabes, ou refugiados, ou mendigos. Então, no momento em que intelectualmente afirmamos que eles não são gente, ma sim um objecto, nós mudamos a rede neural dos humanos para a rede neural que reconhece objectos. Então, quando ouço os gritos de dor de uma pessoa na sala ao lado, não sinto nada e posso continuar a aumentar a voltagem dos choques eléctricos só porque alguém me manda, como aconteceu nas experiências de Milgram e todas as versões das mesmas que já se fizeram.

Como era mesmo a propaganda nazista? “Não são pessoas….” Uma mentira repetida muitas vezes…

Link para o estudo com versão das experiências de Milgram na Polónia: http://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1948550617693060

 

 

A inferioridade mental da mulher

“A mulher não contribuiu com coisa alguma para o desenvolvimento da ciência e é inútil esperar algo dela no futuro”. Paul Julius Moebius

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A inferioridade mental das mulheres é o título do panfleto Über den physiologischen Schwachsinn des Weibes – sobre a imbecilidade fisiológica das mulheres – publicado em 1900 pelo psiquiatra e neurologista alemão Paul Julius Moebius (1853-1907).

Existe uma versão em espanhol publicada em 1982 pela editora Bruguera, traduzido por Adam Kovacsics Mészáros e com extensa introdução escrita por uma feminista italiana (escrita em 1977), Franca Ongaro Basaglia.

Há uma versão em Espanhol com tradução e prefácio de Carmen de Burgos (Ed. Sempere, 1904) que contém muitos comentários nos rodapés das página que refutam a tese de Moebius.

A doença neurológica chamada síndrome de Moebius deve o seu nome a Paul Julius Moebius, que trabalhou principalmente em neurofisiologia e endocrinologia. No entanto, em “A inferioridade mental das mulheres”, os seus argumentos científicos para demonstrar essa deficiência intelectual baseiam-se em outros autores da época e em estudos relacionados com o peso e as características do cérebro – certamente em comparação com os cérebros de “varões”.

Alguns dos argumentos usados por Moebius para provar a afirmação que intitula o panfleto provêm de estudos do médico e criminologista Cesare Lombroso (1835-1909) – e de sua filha, a médica e escritora, Gina Ferrero (1872-1944) – e das teorias do anatomista Nikolaus Rüdinger (1832-1896).

Eis algumas das considerações feitas por Moebius:

“Nos homens pouco desenvolvidos a nível mental  (um negro, por exemplo), encontran-se os mesmos dados anatómicos encontrados no lobo parietal da mulher”

“Em todos os sentidos está plenamente demonstrado que as mulheres têm  certas partes do cérebro de extrema importância para a vida mental menos desenvolvidas, tais como as circunvoluções do frontal e do lobo temporal; e que essa diferença existe desde o nascimento”.

“Uma das diferenças essenciais certamente é o facto de que o instinto desempenha um papel mais importante nas mulheres do que nos homens. […] Então o instinto faz com que a mulher seja semelhante a bestas, mas mais  dependentes, seguras e alegres”.

Todo o progresso parte do homem. Por isso, as mulheres são, para eles, um fardo pesado, pois impedem-nos de usar todos as suas capacidades intelectuais e de usar todas as suas energias em inovações temerárias. Elas também travam iniciativas nobres, porque não conseguem  distinguir o bem e o mal por si só e sujeitam tudo o que pensam e fazem ao que é habitual e ao “’que é dito pelas gentes’”.

1900, data da publicação deste panfleto, não foi assim há tanto tempo, pois não?

 

 

O Scientificus é um projecto de promoção da cultura científica, procurando aproximar a Ciência dos Cidadãos. Este projecto pretende ser um espaço independente, inovador, empreendedor e dinâmico de divulgação da Ciência.