A arte do cérebro bonito

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Em 50 anos, Rámon y Cajal (1852-1934), considerado o pai da Neurociência moderna, fez 2900 desenhos neurológicos.  O livro The Beautiful Brain; the drawings of Santiago Ramón y Cajal, editado pela Abrams, apresenta 80 desses desenhos, alguns inéditos. Este é um livro que acompanha a exposição sobre a arte de Cajal organizada pelo Weisman Art Museum em colaboração com  Eric NewmanAlfonso Araque, e Janet Dubinsky, da University of Minnesota. A exposição, infelizmente, não vai passar por Portugal.

O El País dedica hoje um artigo a este livro e exposição, comparando Cajal com Leonardo Da Vinci, já que ambos eram amplamente dotados para a arte e Ciência. “Se considerarmos o cérebro como uma floresta e 100 mil milhões de árvores e nos dedicarmos vários anos a desenhar (ou fotografia) algumas centenas dessas árvores, nunca iremos entender a floresta. Ao desenhar, Cajal aconselha-nos a ‘construir um inventário mental de regras para a floresta’”, lê-se no artigo do El País.

Rámon y Cajal facultou muitas das primeiras evidências para a compreensão de que os neurónios são unidades sinalizadoras do sistema nervoso e de que cada neurónio é uma célula com processos distintos a emergir do seu corpo celular. Pode não parecer agora, mas esta não foi uma ideia fácil de passar à comunidade científica da época.  Ao contrário do que acontecia com outros tecidos, cujas células têm formas simples, as células nervosas assumem formas complexas; os padrões intricados das dendrites e o curso sem fim dos axónios tornam muito difícil estabelecer a relação entre estes elementos. Mesmo depois dos anatomistas Jacob Schleiden e Theodor Schwann avançarem com a teoria celular no início da década de 1930 – e que estabeleceu um dos maiores postulados da Biologia moderna, a de que as células são os tijolos básicos da matéria viva – muitos anatomistas  não aceitavam a aplicação da teoria celular ao cérebro, o qual era visto como um contínuo reticular.

Daí ter sido fundamental o contributo de Rámon y Cajal quando este começou a utilizar o  cromato de prata usado no Método de Golgi de coloração de neurónios para microscopia: o cromato de prata produzido precipita dentro dos neurónios e torna a sua morfologia visível.Rámon y Cajal aplicou este método a células nervosas embrionárias de muitos animais, incluindo humanos. Foi assim, que para além da doutrina do neurónio, Cajal defendeu dois outros princípios importantes para a organização neuronal que se tornaram fundamentais para o que se sabe sobre comunicação dentro do sistema nervoso: o princípio da polarização dinâmica, relacionado com o facto de que os neurónios partilham uma organização comum, a qual é ditada pela sua função — receber, processar e transmitir informação; e o segundo princípio é o da especificidade de ligação que afirma que as células nervosas não se ligam aleatoriamente.

Do medo à empatia: o longo processo da evolução humana

Psicologia e Neurociência mostram-nos como ainda estamos longe dessa capacidade que evita que nos tornemos psicopatas: a empatia.

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Quem estuda Ciências Sociais, já ouviu falar nas experiências de Milgram. Na verdade, estas foram uma série de experiências começadas em 1961 e a grande conclusão foi que a maioria das pessoas iria magoar deliberadamente outras pessoas – nomedamente dando choques eléctricos –sob as ordens de uma terceira pessoa. As experiências de Milgram tornaram-se uma das experiências mais conhecidas, na área da Psicologia, de todos os tempos.

Agora, mais de 50 anos depois, uma equipa de investigadores na Polónia repetiu a experiência e chegou aos mesmos resultados. “Ao saberem  sobre as experiências de Milgram, uma grande maioria das pessoas afirma que ‘nunca se comportaria daquela forma’”, disse um dos psicólogos, Tomasz Grzyb da Universidade de Ciências Sociais e Humanidades na Polónia. “O nosso estudo ilustrou, mais uma vez,  o tremendo poder das situações e contextos com que os sujeitos são confrontados  e como estes facilmente podem concordar com coisas que eles acham desagradáveis.”

As experiências de Milgram foram conduzidas pelo psicólogo da Universidade de Yale, Stanley Milgram e começaram em Julho de 1961, três meses após ter começado o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann. Milgram queria saber: “será que Eichmann e os seus milhões cúmplices no Holocausto se limitavam a seguir ordens?”

Para explorar isso, Milgram montou uma experiência onde voluntários, sob a autoridade de um experimentador, foram convidados a dar choques elétricos a uma pessoa numa sala ao lado, que podiam ouvir mas não ver, por cada vez que eles davam uma resposta errada. Haviam 30 botões que eles podiam pressionar cada um com uma voltagem diferente. Tanto quanto eles estavam cientes, os choques começaram com um valor inofensivo de 15 volts e iam aumentando até um valor perigoso de 450 volts. Os voluntários foram informados de que esse valor magoaria seriamente o destinatário. O que eles não sabiam era que a máquina não fazia nada além de produzir alguns efeitos assustadores de luz e som, e que a pessoa na outra sala  era um actor profissional que  tinha sido pago para gritar como se estivesse em sofrimento. Tudo isso era desconhecido para o voluntário, que acreditava estar realmente a magoar outra pessoa, mas foi-lhes dito pelo autor do estudo que eles precisavam continuar porque era crucial para a experiência. A variante mais famosa das experiências de Milgram mostrou que 65% dos 40 voluntários seguiu as ordens e foi até à voltagem de 450 volts, apesar dos gritos de dor e pedidos para párar da pessoa da outra sala. Algumas pessoas saíram e muitos protestaram contra a continuação da experiência, mas dois terços obedeceu às ordens e continuaram.

Nos anos seguintes, alguns investigadores argumentaram que a metodologia de Milgram era desleixada e que ele manipulou dados, mas têm sido repetidas variações dos testes por todo o mundo desde então, com resultados bastante consistentes e semelhantes à experiência original. Mas havia um único sítio onde essas experiências não tinham sido realizadas: a Europa central. “O nosso objectivo era examinar o quão alto seria o nível de obediência que encontramos entre moradores da Polónia,” escreveram Grzyb e a sua equipa na revista científica Social Psychological and Personality Science.

Nesta versão moderna da experiência, recrutaram-se 80 participantes (40 homens e 40 mulheres) com idades entre os 18 e os 69 anos. Tal como na experiência de Milgram, os voluntários foram incentivados por um examinador a dar choques a alguém que estava numa outra divisão, com mais intensidade por cada vez que obtivessem uma resposta errada. Disse-se aos voluntários que era importante continuarem a aumentar a intensidade dos choques eléctricos. Mas nesta versão actualizada, haviam apenas 10 botões com valores de voltagem mais baixos numa tentativa de tornar a experiência mais ética. No final, eles verificaram que 90 por cento dos voluntários seguiu ordens para infligir o maior nível de choques – muito semelhante à quantidade de pessoas que carregou no 10º botão aquando das experiências de Milgram.

“Meio século após a pesquisa original de Milgram sobre a obediência à autoridade, uma impressionante maioria dos sujeitos ainda estão dispostos a eletrocutar um indivíduo indefeso,” concluiu Grzyb.

Ora, claro que há uma série de factores a considerar quando se olha para estes resultados, como o pequeno tamanho da amostra, por exemplo. No entanto, se juntarmos estes dados com outra literatura científica, desde a ensaísta Hannah Arendt ao neurocientista Simon Baron-Cohen, vemos como a empatia tem sido e é um “recurso subaproveitado” apesar de ser “um dos recursos mais valiosos no nosso mundo”, como defende Baron-Cohen. Este investigador diz mais: a empatia é um solvente universal, pois qualquer problema imerso em empatia torna-se solúvel. É a forma efectiva de antecipar e resolver problemas interpessoais, conflitos internacionais, problemas no trabalho, dificuldades numa amizade, bloqueios políticos, disputas familiares ou desavenças entre vizinhos.

Do medo à empatia

Mas há uma outra dimensão a considerar: o medo. O medo é o maior dos males nesta época em que vivemos. Devido ao medo, sentimo-nos inseguros, desprotegidos e incapazes. E através dele, agimos de forma destrutiva, na tentativa de eliminar o que julgamos ameaçar-nos, resultando em sofrimento para os outros e para nós mesmos.

Ora, uma das coisas que Simon Baron-Cohen descobriu, e que explanou no seu livro A ciência do mal,  foi como funciona o reconhecimento das emoções, aquilo a que se chama de empatia.download

Empatia é a capacidade de reconhecer as emoções, pensamentos e sentimentos das pessoas, de espelhar essas emoções e de produzir uma resposta adequada ao que se está a ver. P.ex. conseguir ver se uma pessoa está triste ou alegre, se está a sofrer ou não. Mas a empatia não é só o reconhecimento das emoções.

O segundo factor da empatia é o espelhamento: pegamos numa emoção e trazemos essa emoção para nós mesmos. P.ex. vemos uma cena triste num filme e choramos.

Também um médico indiano, de Cambridge, descobriu quatro genes responsáveis pela empatia; há, então, também um terceiro factor, o genético.  Também sabemos que a primeira parte do cérebro a desenvolver-se é o reconhecimento facial das expressões humanas que ocupa quase 75% do hipocampo, na área da memória. O bebé começa a imitar as expressões que nós fazemos. O desenvolvimento normal desse processo conduz ao reconhecimento das emoções.

Todavia,  Simon Baron-Cohen descobriu que há uma relação directa entre empatia e crueldade. Quanto maior a empatia, menor a capacidade de cometer uma crueldade. Porque quando identifico o sofrimento de alguém, também sofro. Isto significa que somos geneticamente forjados para sermos empáticos. Tal como nos primatas, antes de sermos humanos, somos primatas. Simon começou, então, a medir os níveis de empatia.

Ora, para se ser considerado empático é necessário reconhecer, no minimo, 412 emoções em 2 sexos diferentes em pelo menos 3 “raças”. Então, vejamos o que Baron-Cohen nos diz: o psicopata tem ‘0’ empatia; num nível um pouco acima, estão as pessoas borderline, aquelas que são extremamente agressivas; num nível superior temos as pessoas que, quando alteradas emocionalmente, perdem o filtro e agridem. Um pouco mais acima ainda, estão as pessoas que não partem para a agressão física, mas fazem actos de crueldade verbal sem problema.

Susan Fisk, psicóloga, estudou as redes neurais e concluíu que temos uma rede neural para reconhecer objectos e outra para reconhecer seres humanos. Outro psiquiatra, Viktor Frankl, que perdeu toda a família em Auschwitz, citou um fenómeno recorrente na perda de sentido que ele encontrou em muitos dos estudantes que estudavam na Universidade de Yale, onde ele ensinou: a coisificação. A coisificação ocorre quando um ser humano se despe de todos os sentimentos, passando a considerar outro ser humano como um objecto. Philip Zimbardo corrobora que a coisificação é uma realidade neurológica quando, por algum motivo ideológico ou religioso, transformamos pessoas em objectos descartáveis. Uma forma de protecção é desligar. Coisas podem ser usadas, pessoas não. Por exemplo, imigrantes não são gente, ou terroristas árabes, ou refugiados, ou mendigos. Então, no momento em que intelectualmente afirmamos que eles não são gente, ma sim um objecto, nós mudamos a rede neural dos humanos para a rede neural que reconhece objectos. Então, quando ouço os gritos de dor de uma pessoa na sala ao lado, não sinto nada e posso continuar a aumentar a voltagem dos choques eléctricos só porque alguém me manda, como aconteceu nas experiências de Milgram e todas as versões das mesmas que já se fizeram.

Como era mesmo a propaganda nazista? “Não são pessoas….” Uma mentira repetida muitas vezes…

Link para o estudo com versão das experiências de Milgram na Polónia: http://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1948550617693060

 

 

A inferioridade mental da mulher

“A mulher não contribuiu com coisa alguma para o desenvolvimento da ciência e é inútil esperar algo dela no futuro”. Paul Julius Moebius

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A inferioridade mental das mulheres é o título do panfleto Über den physiologischen Schwachsinn des Weibes – sobre a imbecilidade fisiológica das mulheres – publicado em 1900 pelo psiquiatra e neurologista alemão Paul Julius Moebius (1853-1907).

Existe uma versão em espanhol publicada em 1982 pela editora Bruguera, traduzido por Adam Kovacsics Mészáros e com extensa introdução escrita por uma feminista italiana (escrita em 1977), Franca Ongaro Basaglia.

Há uma versão em Espanhol com tradução e prefácio de Carmen de Burgos (Ed. Sempere, 1904) que contém muitos comentários nos rodapés das página que refutam a tese de Moebius.

A doença neurológica chamada síndrome de Moebius deve o seu nome a Paul Julius Moebius, que trabalhou principalmente em neurofisiologia e endocrinologia. No entanto, em “A inferioridade mental das mulheres”, os seus argumentos científicos para demonstrar essa deficiência intelectual baseiam-se em outros autores da época e em estudos relacionados com o peso e as características do cérebro – certamente em comparação com os cérebros de “varões”.

Alguns dos argumentos usados por Moebius para provar a afirmação que intitula o panfleto provêm de estudos do médico e criminologista Cesare Lombroso (1835-1909) – e de sua filha, a médica e escritora, Gina Ferrero (1872-1944) – e das teorias do anatomista Nikolaus Rüdinger (1832-1896).

Eis algumas das considerações feitas por Moebius:

“Nos homens pouco desenvolvidos a nível mental  (um negro, por exemplo), encontran-se os mesmos dados anatómicos encontrados no lobo parietal da mulher”

“Em todos os sentidos está plenamente demonstrado que as mulheres têm  certas partes do cérebro de extrema importância para a vida mental menos desenvolvidas, tais como as circunvoluções do frontal e do lobo temporal; e que essa diferença existe desde o nascimento”.

“Uma das diferenças essenciais certamente é o facto de que o instinto desempenha um papel mais importante nas mulheres do que nos homens. […] Então o instinto faz com que a mulher seja semelhante a bestas, mas mais  dependentes, seguras e alegres”.

Todo o progresso parte do homem. Por isso, as mulheres são, para eles, um fardo pesado, pois impedem-nos de usar todos as suas capacidades intelectuais e de usar todas as suas energias em inovações temerárias. Elas também travam iniciativas nobres, porque não conseguem  distinguir o bem e o mal por si só e sujeitam tudo o que pensam e fazem ao que é habitual e ao “’que é dito pelas gentes’”.

1900, data da publicação deste panfleto, não foi assim há tanto tempo, pois não?

 

 

Pubhd Porto – 2ª sessão

O Pubhd Porto teve a sua 2ª sessão. Correu tudo bem!

Como descreveu a Filipa, esta segunda sessão pode ser resumida pela frase de M. Gorbatchev:

““O desafio que nos espera mais não é do que assegurar a sobrevivência da humanidade”

Se quiserem saber sobre os temas, cliquem nos links:

Da violência e seu contrário: da História à Ciência

Como se comunica num ambiente de cancro?

As galáxias preferem ambientes com…poucas galáxias

 

A próxima sessão é já no dia 29 de março e iremos ter pontes entre a Engenharia e a Astronomia, Astrofísica e Comunicação de Saúde. Apareçam no Pinguim Café.

Mãos de Fogo

Vamos dizer a verdade: o que é que sabemos sobre fogo?

Bem, sabemos que é quente e que é suposto queimar as nossas mãos se lhe tentarmos tocar, certo?

Mas… E se pudermos realmente “brincar com o fogo”? Tirar as aspas da expressão e não queimar as mãos?!

O sabão que utilizamos nas nossas casas é na realidade para proteger as nossas mãos para que o gás butano se possa incendiar.

Tal ocorre porque a água é um bom condutor de calor logo o último é desviado para as bolhas de metano. Assim, a água evapora e protege as mãos de qualquer queimadura.

Contudo, uma pequena quantidade de gás butano é utilizado, portanto não existe muito calor que seja produzido e as nossas mãos não ficam em chamas por um longo período de tempo.

Bem-vindos ao maravilhoso mundo da química!

Bem-vindos ao mundo onde tudo se torna finalmente possível.

Poderão acompanhar toda a experiência no vídeo seguinte…

Fármacos

Entre as virtudes da natureza, existe uma que raramente temos em conta: a sua comprovada capacidade curativa. Os efeitos benéficos das substâncias naturais derivadas de plantas, animais e minerais que nos rodeiam colaboram na tenaz insistência do Homem em resistir às doenças. A medicina, em conjunto com a física, a química e a biologia, conseguiu isolar essas substâncias para elaborar os fármacos e dar solução à dor e, inclusivamente, curar definitivamente uma doença. Por isso, quando nos dói muito a cabeça, estamos muito engripados ou sentimos uma dor abdominal que nos incomoda durante vários dias, o melhor é ir ao médico, que, na maioria das vezes, nos receitará um medicamento.

Quando isso acontece, confiamos que ao adquiri-lo e administra-lo no nosso corpo corrigiremos o estado de doença pelo qual consultámos o profissional. As bases desta confiança recaem nos complexos e extensos estudos prévios que se realizaram com a substância em questão, que certificam a sua segurança e a sua ação.

O desenvolvimento de fármacos compreende múltiplos aspetos onde intervêm cientistas de diferentes especialidades, e implica também vários anos de ensaios até que um médico possa receitá-lo no seu consultório. Em primeiro lugar, é preciso compreender a natureza e as manifestações da doença, entendendo os seus componentes ambientais e genéticas, e verificando se se encontram envolvidas outras entidades tais como os micróbios. Conhecido o fenótipo anormal que se deseja corrigir, é vital estudar como é possível a sua correção, e se para isso é necessário administrar substâncias não produzidas pelo indivíduo. É aqui que surgem os fármacos, esses compostos naturais ou artificiais que colaboram na normalização dos processos metabólicos, que ajudam a reparar tecidos e órgãos, que nos aliviam a dor, aumentam as nossas defesas ou matam os micróbios que nos invadem.

Onde obtê-los ou como produzi-los; como administrá-los; que efeitos benéficos produzem; quais os efeitos negativos; quanto duram os benefícios; são perguntas a que é necessário responder e que guiam as etapas experimentais no desenvolvimento de fármacos.

O ponto de partida da investigação farmacológica é a procura de uma substância que, em princípio, surta o efeito desejado, apesar de algumas das suas propriedades poderem ou inclusivamente deverem ser melhoradas. Os produtos deste tipo descobrem-se por casualidade, por intuição ou mediante uma procura sistemática.

Muitos dos novos caminhos terapêuticos devem-se à casualidade. O desenvolvimento dos diuréticos, por exemplo, sofreu um impulso decisivo ao descobrir-se, por acaso, que um composto de mercúrio com o qual se estava a tratar um paciente afetado por uma doença venérea, quadruplicava e até quintuplicava a secreção de urina.

“Um caso fortuito, pôs nas nossas mãos um preparado no qual descobrimos um efeito antipirético extraordinário.” Por estas palavras, começou um artigo publicado em 1867 na prestigiosa revista Centralblatt fur Klinische Medizin que se intitula “A antifebrina, um novo antipirético.” Nele se descreve qua ao confundir-se, por equívoco, naftalina com acetanilida, se descobriu que esta substância possuía propriedades antipiréticas insuspeitadas. Como é fácil supor, depois desta descoberta, intensificou-se a investigação no campo das substâncias antipiréticas e analgésicas.

Não obstante, em muitas ocasiões, o acaso por si só não vale nada se não está unido à intuição do investigador. A descoberta da penicilina constitui um exemplo típico. Em 1928, o bacteriologista inglês Alexander Fleming observou que num dos recipientes em que cultivou bactérias, se tinham formado também fungos não desejados e que em redor destas colónias apareciam zonas isentas de bactérias. Provavelmente outros investigadores ter-se-iam limitado a deitar fora esse recipiente. Fleming, pelo contrário, intuiu a importância do processo e decidiu identificar essa substância misteriosa produzida pelos fungos que impedia a propagação das bactérias. Foram necessários dezasseis anos de trabalho árduo, até que se conseguisse isolar a forma natural desse composto a que se chamou “penicilina”. Esta descoberta não foi obra de uma só pessoa, mas de muitos investigadores que trabalhavam na Universidade e na indústria farmacêutica.

Ainda que se observe grandes êxitos no passado e no presente da farmacologia, não é possível esquecer que ainda existem muitas doenças para as quais não há uma terapia eficaz.

O melhor para o Dia dos Namorados pode ser… Camuflagem!

O famoso Dia de S. Valentim terminou mesmo há pouco e, confesso, algo que não me agrada é como conseguimos tornar tudo tão comercial. Para quem gosta de jantar fora e ir ao cinema neste dia, talvez o melhor seja mesmo usar… Camuflagem!

Se para realizarmos camuflagem tivermos que recorrer à ficção científica e isso permitir torná-la num facto e não apenas ficção, ainda melhor!

Conseguimos observar objetos dado que as características destes lhes permitem não absorver um determinado tipo de radiação que, posteriormente, é transmitida para os nossos olhos com determinado comprimento de onda – permitindo-nos ver algo.

Ou seja, se conseguirmos alterar a forma como a luz interage com eles talvez consigamos fazer com que algo permaneça invisível; de uma forma simples, se desviarmos a luz em torno do objeto, este torna-se invisível.

Recentemente, uma construção de lentes (em forma de prisma hexagonal) permitiu que a luz fosse desviada do objeto, mas se mantivesse em torno dele – assim conseguimos ver todo o espaço que se encontra à volta do mesmo, fazendo com que apenas o objeto se torne invisível.

Esta é uma das formas de fazer com que os aviões furtivos se tornem invisíveis nos radares, mas também uma ótima maneira de me tornar invisível neste dia.

Vou só ali experimentar e já volto.

Fiquei com o vídeo…

Até lá!

Em busca da Química da Vida

O trabalho de Zita Martins, astrobióloga e uma das oradoras do próximo TedEXOporto, procura “puxar os limites do sistema solar” à procura de provas e dados sobre a origem da vida na Terra e a existência de vida extra-terrestre.

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Zita Martins Foto: Miguel Fonta

É um pequeno passo na história da evolução da vida, mas um grande salto que fascina a astrobióloga, Zita Martins: como se vai do sistema solar para a existência dos primeiros organismos? Os mistérios em torno deste evento adensaram-se ainda mais quando alguns cientistas começaram a defender a existência de evidências geológicas de que a atmosfera da Terra, na altura, não correspondia ao descrito na sopa primordial, segundo a teoria de Miller e Urey, de 1953. Mas o assunto é polémico e Zita Martins investiga precisamente sobre uma das questões que mais tem intrigado ao longo de séculos da Humanidade: Como surgiu a vida como a conhecemos?

Causa primária de todas as coisas?

Sobre a famosa hipótese de ter sido Deus ou uma causa primária a criar o universo, Zita Martins é peremptória: “Não há qualquer facto que justifique a tese de que existe uma causa primária inteligente. Cada um pode acreditar no que quiser. Mas os factos e os dados de laboratório não apontam para a existência de qualquer princípio inteligente que esteja na origem da vida na Terra”. Tentámos fazer a pergunta de várias maneiras. Porém, as respostas eram sempre inequívocas: “os factos dizem que esse princípio não existe; o resto fica no domínio da crença. Até os padres-cientistas do Vaticano não falam em Deus quando estão a apresentar as suas pesquisas”. Foi uma resposta cautelosa e acertada, tendo em vista a definição de facto científico. Um facto científico, seja nas chamadas ciências naturais (química, biologia, matemática, física, etc.) seja nas ciências sociais (comunicação, sociologia, educação, etc.) é uma observação que foi repetidamente confirmada e que, por isso, é aceite como verdade. No entanto, em Ciência, a verdade nunca é a Verdade, nunca é definitiva e, como defendeu o filósofo Karl Popper, é refutável.  Neste sentido, a resposta da cientista é correcta, pois um facto, em Ciência, remete ou para uma observação ou para algum tipo de medida ou para uma explicação científica que foi testada muitas vezes sob as mesmas circunstâncias. Já uma teoria, no senso comum, é um palpite ou especulação. Para a Ciência, uma teoria é uma explicação abrangente sobre algum aspecto da natureza que é suportada por um vasto corpo de evidências. Por exemplo, a teoria heliocêntrica que defende ser a Terra a girar à volta do Sol é uma das teorias cujas evidências em que se baseia são tão fortes e numerosas que dificilmente cairá. No entanto, vale a pena ver o que Rupert Sheldrake, biólogo e autor do livro Biologia da crença, diz sobre factos científicos: “Os factos da ciência são reais como são as técnicas usadas pelos cientistas; também são reais as tecnologias na base dessas técnicas. Contudo, o sistema de crenças que governa o pensamento científico convencional é um acto de fé e de crença”.

Follow the water

Quer seja a teoria da sopa primordial quer a teoria exógena, ou seja, aquela que afirma que os constituintes básicos chegaram ao nosso planeta através de meteoritos que o bombardearam, a astrobióloga considera que ambas as teorias são plausíveis. Mas reconhece que pelo facto de não se ter, até agora, conseguido reproduzir a experiência de Miller, a teoria exógena está a levar vantagem. Mas a verdade é que, alerta a investigadora, “podemos arranjar provas e dados, mas vamos continuar a não saber, com toda a certeza, se essa é a forma como a vida surgiu”.

Outra dificuldade é saber o que se entende, afinal, por vida. Mas também aí Zita Martins é rápida a responder: “Não me interessam as definições”. Mas intetressa-lhe um elemento: o carbono, ou não fosse a cientista licenciada em Química. E é com a mira no carbono que Zita Martins procura métodos de detecção que permitam encontrar vestígios de vida em meteoritos caídos na Terra ou na superfície de Marte. Porquê este interesse no carbono? Porque este elemento é o mais frequente no universo e tem formas de ligações estáveis. O carbono é, pois, a pista para saber em que locais do sistema solar a vida pode ter existido.

A grande aposta de Zita para um local no universo onde possa existir vida são as luas geladas de Júpiter e Saturno, planetas com muitas camadas de gelo, mas com um ocenao líquido.

Já sobre o presente e futuro da Astrobiologia em Portugal, Zita Martins diz que há ainda alguma “falta de visão” para que esta área de investigação se estabeleça em Portugal e ela está aberta a essa possibilidade.

O Scientificus é um projecto de promoção da cultura científica, procurando aproximar a Ciência dos Cidadãos. Este projecto pretende ser um espaço independente, inovador, empreendedor e dinâmico de divulgação da Ciência.