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O Homem de Piltdown

Uma mandíbula, uma parte de um crânio e um dente foram os vestígios fósseis encontrados em 1913 numa quinta de Piltdown, no sul de Inglaterra. Estes vestígios foram inicialmente motivo de grande alvoroço no mundo científico da época, mas acabariam por ser a fonte de um grande escândalo.

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Charles Dawson (imagem retirada desta página)

Charles Dawson, advogado, antiquário, colecionador de objetos raros e arqueólogo amador, apresentou-se perante a prestigiada Sociedade Geológica de Londres no outono de 1913 e declarou ter descoberto o Eoanthropus dawsoni, o “Homem de Piltdown”, o antepassado da humanidade, o elo perdido, numa quinta de Piltdown, na região de Weald, no sul de Inglaterra. Durante anos manteve-se vivo o debate sobre a origem destes vestígios, e a imprensa afirmou que muito provavelmente corresponderiam ao elo perdido, que denominaram Eoanthropus dawsoni (em honra do seu descobridor).

Em 1953, quando Dawson já tinha falecido, os investigadores descobriram que os vestígios tinham sido tingidos, limados, lascados e enterrados no poço onde acabariam por ser “casualmente encontrados” pelo advogado e colecionador. Tinham começado a colocar-se cada vez mais interrogações sobre a antiguidade e a origem desses vestígios. Por fim, o dentista A.T. Marston determinou que os dentes desse esqueleto correspondiam a um orangotango, o dente solto, a um macaco, e o crânio, a um ser humano (Homo sapiens): a partir de então, as análises do conteúdo em flúor dos ossos demonstraram que o enterramento tinha sido intrusivo, e concluiu-se ainda que a cor escura dos ossos se devia a um tratamento químico.

Contudo, a “descoberta” de Dawson teve o apoio de figuras importantes do mundo científico da época, como Arthur Smith Woodward (diretor do Departamento de Geologia do Museu Britânico de História Natural e presidente da Sociedade de Geológica) e do paleontólogo e filósofo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin. E até mesmo de escritores de grande popularidade, como Sir Arthur Conan Doyle, vizinho de Dawson e pai literário de Sherlock Holmes.

Quem cometeu a fraude? E por que razão? O certo é que desde que o engano foi divulgado surgiram especulações de todo o tipo. Uma delas recorda que o único país onde nunca se tinham encontrado vestígios de hominídeos pré-históricos era a Grã-Bretanha, e propõe que é possível que Charles Dawson se tenha proposto resgatar a “honra britânica” criando uma das maiores fraudes científicas da história. Mas, independentemente de qualquer hipótese, a verdade foi para a tumba com o seu autor.

Milton Humason

Milton Humason! Já alguma vez ouviu falar deste astrónomo? Não! Deixe-me contar-lhe um pouco da sua história. Conta a lenda que este astrónomo descobriu a sua vocação quando se apaixonou pela filha de um engenheiro do observatório que estava a construir.

No princípio do século XX, a cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, era um lugar de céus cristalinos. Nessa altura teve início a construção, no Monte Wilson, de um observatório que viria ser recordado na história porque nesse local Edwin Hubble descobriria uma das provas nas quais assenta o conhecimento atual do Universo: o afastamento das galáxias. O trabalho era árduo. Havia de levar até ao cimo do monte todos os materiais, além de pesados artefactos. Parte da construção incluía acarretar as delicadas peças do telescópio Hooker, assim chamado em honra do magnata norte-americano que a pedido do filho doou o dinheiro para a sua construção. Eram necessários muitos trabalhadores para levar a cabo esta missão. Um deles era mais empreendedor que os restantes.

Milton Humason, apesar da sua pouca instrução, começou a interessar-se por todos os instrumentos que ajudava a transportar. Era um jovem com escolaridade básica mas curioso e bastante inteligente. Conta-se que era fanático por jogar às cartas e estava disposto a executar qualquer tipo de trabalho. Conheceu a filha de um dos engenheiros com quem viria a casar e decidiu ficar no observatório de forma permanente. Uma vez construído o observatório ficou para desempenhar diversos trabalhos de eletricidade. E, a pouco e pouco, foi exercendo cada vez mais tarefas, até que um dia teve a oportunidade de substituir o ajudante do telescópio. O seu espírito curioso e a sua extraordinária capacidade levaram-no a tornar-se ajudante de Hubble, que ficou impressionado com a capacidade de Humason, considerando-o um seu par. Juntos mediram o espetro das galáxias distantes, e com o tempo, especializou-se em espectroscopia, além de realizar um sem-número de trabalhos científicos sobre o tema. Descobriu o cometa Humason e uma cratera na Lua, que foi batizada com o seu nome. Recebeu o título doutor Honoris Causa da Universidade de Lund (Suécia) e foi considerado membro da comunidade astronómica norte-americana. Aquando da sua morte já tinha publicado mais de uma centena de artigos sobre astronomia e astrofísica.

Esta história faz-me recordar um conceito muitas vezes aplicado na ciência –serendipidade. Este conceito teve a sua origem na forma inglesa de “serendipity” e foi criado, em 1754, pelo escritor Horace Walpole tendo por base um conto persa infantil “Os três príncipes de Serendip”. Na história de Walpole os três príncipes estavam constantemente a realizar inesperadas descobertas, como resultado da capacidade de observação e da sagacidade. Atualmente, este conceito é visto como uma forma especial de criatividade, ou uma das muitas técnicas de desenvolvimento do potencial criativo de uma pessoa adulta, que associa a perseverança à inteligência e ao senso de observação. Foram precisamente estas características que permitiram que Humason atingesse um patamar elevado no seio da comunidade científica.

Ondas, Mulheres e Gatos

Na década de 20, quando a física quântica ainda estava no início, o austríaco Erwin Schdrödinger (1887-1961) surgiu como um dos nomes dessa nova área de pesquisa.

A grande contribuição, deste físico, prendeu-se com o desenvolvimento do conceito e da forma matemática da chamada “função de onda”. A função de onda é uma expressão que permite descrever o comportamento de uma partícula fundamental, como por exemplo um electrão. Esta função contém todas as informações que podem ser conhecidas sobre essa partícula.

Schdröndinger teve uma formação inicial excelente, no seio de uma família rica de Viena, despertando-se no jovem Erwin o interesse pela ciência.

Após terminar os estudos e de combater na 1ª Guerra Mundial, Erwin Schdröndinger iniciou a sua carreira académica e vida nómada.

Os principais trabalhos realizados por Schdrödinger foram desenvolvidos na Alemanha, na altura, o centro mundial de ciência. Esta série de trabalhos tiveram como recompensa o Prémio Nobel da Física em 1933.

Com a chegada de Hitler ao poder, Schdrödinger vagueia um pouco por toda a Europa coleccionado artigos científicos, prestígio, amigos e mulheres.

Schdrödinger tinha como característica pessoal: ser um notório conquistador tendo tido várias amantes. Conta-se que Schdrödinger estava numa viagem romântica com uma das amantes quando formulou a equação de onda. Mas ninguém descobriu o nome da musa inspiradora, uma vez que a quantidade de mulheres foi enorme.

Para além da física quântica, deu grandes contribuições ao nível da biologia. Ele já acreditava que as leis da física eram aplicadas ao funcionamento dos seres vivos.

Em 1944, Schdrödinger especulou sobre a existência de moléculas que habitariam todas as células e controlariam o mecanismo de hereditariedade. Alguns anos mais tarde, em 1953, a descoberta da estrutura do ADN confirmou o seu postulado. Schdrödinger também ficou conhecido pelo paradoxo do gato na caixa.

Colocou-se um gato dentro de uma caixa juntamente com uma porção de material radioactivo e um detector de radiação. A actividade é montada de forma que, quando uma partícula de radiação é detectada, um mecanismo liberta um gás venenoso letal. Após a actividade estar montada fechou-se a caixa e esperou-se.

Decorrida a primeira hora, a probabilidade do material ter emitido uma partícula radioactiva – decaimento – é de 50%. Se o decaimento ocorreu, o detector foi accionado, o gás foi libertado, e o gato morreu. Se isso não ocorreu, o gato sobreviveu à primeira hora. Isto é, após uma hora, o gato pode estar vivo ou morto.

Desta forma o estado de saúde do gato está influenciado pelo comportamento das partículas microscópicas, que é explicado pela teoria da Mecânica Quântica É uma teoria altamente eficiente, mas possui algumas coisas estranhas. Segundo ela, um átomo pode estar no estado decaído e não decaído ao mesmo tempo. Se isso é verdade o gato de Schrödinger poderia estar morto e vivo ao mesmo tempo.

Schdrödinger propôs este paradoxo para explicar que havia um problema com a interpretação da Mecânica Quântica, uma vez que podemos ter mais de uma resposta correcta para um problema que logicamente só poderá ter uma resposta. Ainda hoje este paradoxo não apresenta resposta!