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Sugestão de Leitura #10

Para este início de ano o Scientificus deixa duas sugestões ambas com a chancela da Fundação Francisco Manuel dos Santos:

Pseudociência  – David Marçal

“Enquanto a ciência tiver credibilidade, haverá sempre quem queira vender as suas ideias, produtos e serviços, alegando que estes têm validade científica, sem que isso seja verdade. A pseudociência está por todo o lado e recorre a um conjunto de estratégias reconhecíveis, na tentativa de se validar. Neste ensaio são apresentadas algumas dessas estratégias, como o uso abusivo de linguagem aparentemente científica e a evocação de figuras de autoridade (tais como especialistas e médicos). A ciência não se baseia em nada disso, mas sim em provas, passíveis de confirmação. São propostas algumas ferramentas para ajudar a distinguir ciência de pseudociência, mas o único antídoto para a pseudociência é a cultura científica.”

 Os Limites da Ciência  – Jorge Calado

“A ciência é infinda, mas limitada. Alguns limites são internos: as regras, leis, princípios, teoremas, etc., que a própria ciência produz. Outros, impostos pelas técnicas e instrumentos de medida, são provisórios. A língua (matemática) e a linguagem científicas também podem ser obstáculos à comunicação. Os verdadeiros limites da ciência são, porém, de natureza ética, política, económica e financeira. Neste ensaio são analisados os quatro CC da ciência: o seu carácter (nomeadamente a serendipidade da descoberta científica), as crises causadas pela censura e pelo mau comportamento científico (erro, plágio, fraude), o papel do capital (financiamento e administração da ciência) e as catástrofes (naturais, como a erupção da Krakatoa, em 1883; ou devidas a falha humana, como Bhopal, Chernobyl e Golfo do México). São também discutidas as ameaças vinda do espaço, os sobressaltos do bioterrorismo e das nanotécnicas e o destino do lixo nuclear. Numa época em que a guerra se trava já no ciberespaço, o leitor é alertado para os perigos latentes da (super)inteligência artificial.”

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Divulgação #2

No âmbito do Ciclo de Formações em Bioinformática e Bioquímica Estrutural, as Áreas Técnico Científicas de Biomatemática, Bioestatística e Bioinformática e Ciências Químicas e das Biomoléculas da Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto – Instituto Politécnico do Porto convidam os potenciais interessados (investigadores, docentes e estudantes) a participar no curso:

BIOQCOMP

BIOQUÍMICA COMPUTACIONAL

(Unidade Curricular do curso de Mestrado em Bioquímica em Saúde)

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Formadora:

Prof. Ana Moura Pessoa

Instituto Politécnico do Porto

Mais Informações: bioquimica.saude@estsp.ipp.pt

Todos os jovens dos sete aos setenta e sete

Em 1929 nasceram, pela mão de Hergé pseudónimo de George Remi, as personagens do jovem repórter Tintin e do seu fiel companheiro Milu que haveriam de fascinar várias gerações em todos os cantos do mundo. As aventuras de Tintin foram traduzidas para mais de 40 línguas, sendo seguidas por “todos os jovens dos sete aos setenta e sete”.

As aventuras de Tintin constituíram à época um importante instrumento de divulgação de ciência. Por exemplo, em “Tintin no Congo” aparecem várias invenções na altura ainda pouco difundidas, como a câmara de filmar portátil e uma espécie de cinema falado apoiado num fonógrafo – o primeiro filme sonoro tinha aparecido quatro anos antes. Pouco depois, em «A Ilha Negra», de 1938, Tintim descobre um aparelho de televisão numa ilha da Escócia – Londres tinha iniciado as primeiras emissões apenas dois anos antes e, para a maioria dos leitores da época, tratava-se de um aparelho desconhecido.

Contudo a grande explosão de ciência e tecnologia feita por Hergé surge em 1953 e 1954, com os álbuns da viagem de Tintim à Lua e “Explorando a Lua”. Hergé consultou vários cientistas, com especial destaque para o professor Alexandre Ananoff, autor de uma conhecida obra de astronáutica editada em francês pela Fayard. Ao contrário das verdadeiras viagens tripuladas à Lua, que se realizariam 15 anos depois, o foguetão do professor Girassol é movido a energia nuclear, pelo que tinha uma reserva energética imensa, que lhe dava a possibilidade de pousar sobre o nosso satélite e de vencer depois a atracção lunar. Como é conhecido, apenas o módulo lunar aterrou na superfície da Lua, enquanto a nave espacial se mantinha em órbita para aproveitar o combustível.

Ao consultar vários cientistas para o desenvolvimento da obra, Hergé consegue desenhar com bastante realismo alguns pormenores, como por exemplo, a ausência de peso sentida pelos astronautas quando o motor pára, ou o desenho do asteróide “Adonis”. Referia-se que até essa data nunca tinha sido visualizado um asteróide.

Para além destes conceitos de ciência, Hergé encarava a ciência com romantismo, em especial, quando desenha o professor Girassol, um cientista multifacetado que trabalha em casa, tal como um cientistas dos séculos XVII e XVIII. Inventa submarinos individuais, máquinas de escovar roupa, aparelhos de produzir água gaseificada, armas de ultra-sons, foguetes espaciais e patins a motor. Dedica-se à botânica, à física nuclear e a múltiplas outras disciplinas.

Hérge também descreve nas suas aventuras fenómenos naturais relativamente raros, pouco observados pela maioria dos indivíduos, o que atraem o leitor para a história. Entre esses fenómenos surgem as miragens, provocadas pela reflexão da luz junto do solo quente dos desertos, onde o ar está mais aquecido. Essa reflexão é apenas o resultado da refracção da luz, que muda progressivamente de direcção ao atravessar camadas sucessivamente mais quentes de ar. Como consequência, o solo parece um espelho que reflecte o céu, daí a ilusão de um lençol de água, a que a mente ansiosa do viajante acrescenta umas palmeiras e uma visão de oásis.

Contudo, nem sempre as referências científicas presentes nos álbuns são cientificamente correctas. É o caso do arco-íris que aparece em «As 7 Bolas de Cristal». Aí, curiosamente, o autor desenha erradamente a sequência de cores. De fora aparecem o violeta e o azul e, no interior, o laranja e o vermelho. Na realidade, os arco-íris apresentam as cores em ordem inversa. Com efeito, o fenómeno deriva da desigual refracção das diversas componentes da luz do Sol nas gotículas de água das nuvens. A luz com menor comprimento de onda (azul) é mais refractada; a de maior comprimento de onda (vermelho) é menos.

Estas estórias de Tintin constituem para muitos o primeiro contacto com a ciência, pelo que todo o seu poder de sedução é um importante instrumento de divulgação de ciência!!!