Todos os artigos de antmcosta

Docente e Investigador. Comunicador de Ciência.

Propriedades dos Universos em Expansão

 

dad-in-zero-g_1.jpeg

(Imagem retida de http://www.hawking.org.uk)

No passado mês de março morreu um dos mais brilhantes cientistas dos últimos tempos, quer pela contribuição que deixou à física e astronomia, quer pela resiliência no combate às limitações físicas de uma doença que o atormentava desde os 21 anos. Stephen Hawking trouxe um novo olhar sobre os buracos negros, nunca deixando de se indagar sobre a origem do Universo.

Stephen Hawking nasceu em Oxford a 8 de Janeiro de 1942 – precisamente 300 anos depois da morte de Galileu Galilei e morreu a 14 de Março deste ano – no dia do nascimento de Albert Einstein há 139 anos, que é também o dia do Pi (3,14).

Para homenagear o legado que deixou vamos olhar para estas zonas do universo que tanto interesse despertarem no físico britânico.

Quando uma estrela de grande massa morre, a estrela de neutrões que resta tem uma massa tal que não consegue vencer a força da própria gravidade. A sua gravidade é tão forte que absorve tudo o que se aproxima, incluindo a luz. O objeto torna-se um buraco negro. Os buracos negros são objetos muito estranhos. Não apresentam forma material – deles resta apenas a gravidade. Tudo o resto foi comprimido num ponto de dimensões matemáticas indefinidas no centro do buraco, chamado singularidade. Aí as leis da física não funcionam. A gravidade é essencialmente infinita. Quando nos afastamos, a gravidade vai diminuindo até que, a um radio determinado, a velocidade de fuga desce abaixo da velocidade da luz. No interior desse raio, nenhum sinal emitido durante um qualquer acontecimento consegue escapar. Por esta razão, esta fronteira crítica é conhecida como horizonte de acontecimentos. Visto sobre um fundo luminoso, um buraco negro teria do aspeto de um disco negro sem qualquer característica que o distinguisse com as dimensões do seu horizonte de acontecimentos, rodeado por imagens de fundo profundamente distorcidas sobre o qual seria “visível”.

Uma das ideias, ainda não confirmadas por observações, ficou conhecida como a radiação de Hawking, um tipo de radiação libertada pelos buracos negros conforme se vão evaporando até desaparecerem. Este pressuposto assenta na ideia de que os buracos negros emitiam radiação, quando se defendia que apenas engoliam energia.

Por fim, referir que o título deste texto é idêntico ao titulo da tese de doutoramento, concluída em 1966, na Universidade de Cambridge  e que foi divulgada pela primeira vez no ano passado. Em menos de 24 horas, houve quase 60 mil downloads da tese, informava a Universidade de Cambridge, que considerou tratar-se de um documento “histórico”.

Na sequência desta publicação Stephen Hawking afirmou “ao tornar livre o acesso à minha tese, espero inspirar pessoas em todo o mundo a olhar para cima, para as estrelas, e não para baixo, para os seus pés”, uma ideia que sempre o acompanhou ao longo da sua vida.

Anúncios

O julgamento do macaco

Nos dias que correm a polémica em torno do ensino do Criacionismo vs Teoria de Darwin tem ganho novas dimensõescom alguns estados dos Estados Unidos da América (EUA), e países, como a Turquia, que a proibiram o ensino das ideias de Darwin nas escolas. Contudo esta polémica já vem de longa data, quando em 1925 um professor de uma escola pública americana foi condenado por ensinar a teoria da evolução de Darwin. A história conta-se rapidamente.

trial2

Por volta de 1925, havia no estado do Tennessee uma lei que proibia o ensino de teorias que contrariassem o relato bíbli

co da Criação. No entanto, o professor John Scopes atreveu-se a dar uma aula sobre Darwin numa escola de Dayton, Tennessee. Esta ousadia de liberdade académica custou-lhe um julgamento muito mediático e que os norte-americanos seguiram pela rádio em direto.

O que se passou foi que o professor mostrou na aula um livro que incluía as ideias desenvolvidas por Darwin na Origem das Espécies, e alguns alunos denunciaram-no. Um julgamento de apenas dez dias confrontou, pelo lado da defesa, Clarence Darrow, um advogado famoso, com William Jennings Bryan, do lado da acusação. Este último era um exímio advogado e foi três vezes candidato a presidente dos EUA pelo Partido Democrata.

Darrow argumentou que a teoria não contradiz o relato bíblico e provou-o apresentando no julgamento oito especialistas na teoria da evolução.

Para além disso, Darrow acusou um juiz de estar a beneficiar um culto, o que infringia o princípio constitucional de laicismo. Bryan propôs uma interpretação literal da Bíblia e da lei e argumentou que o ensino da teoria da evolução era moralmente prejudicial para os estudantes.

No entanto, a pérola do julgamento foi a intervenção do advogado de defesa que declarou que a Bíblia devia cingir-se ao âmbito do que é moral e não invadir o terreno da ciência.

Scopes foi considerado culpado e foi-lhe aplicada uma multa de 100 dólares. Ao conhecer o veredicto, o professor pediu a palavrapela primeira vez durante o julgamento: “Dr. Juiz, sinto que sou culpado por ter violado um estatuto injusto. Continuarei no futuro – como fiz desde sempre – a opor-me a esta lei de todas as formas possíveis. Qualquer outra atitude iria contra o meu ideal de liberdade académica, o de ensinar a verdade tal como está estabelecido na Constituição, com liberdade pessoal e religiosa. Sinto que a sentença é injusta.”

A sentença de Scopes, finalmente ficou sem efeito por um tecnicismo legal. O professor John Scopes continuou a dar aulas de geologia até se reformar.

A lei de Butler, que deu origem a todo o conflito e que proibia ignorar a participação de Deus, no ensino da origem da vida, permaneceu vigente até 1970.

Astronomia no passado

Olhando para feitos recentes da ciência, existe uma certa tendência para considerar as primeiras civilizações ignorantes em matéria de Ciência. Na realidade, muitos pontos de vista, eram de facto muito primitivos. Mas é notável que o seu profundo conhecimento de astronomia tenha também influenciado a sua arquitetura. Por volta de 3000 a.C., começou a construção de um dos mais famosos monumentos do mundo, Stonehenge, que hoje se pensa ter sido um primitivo observatório astronómico. O Stonehenge é provavelmente o mais conhecido monumento megalítico da Europa. Fica numa zona rural em Inglaterra e é uma importante atração turística. Ninguém sabe precisamente como foi construído em diferentes épocas pelos druídas. A primeira fase deve ter começado há cerca de 5 mil anos, com a criação do núcleo original – um conjunto de banco de terra, buracos e valas. O primeiro círculo de pedras foi erigido possivelmente mil anos mais tarde, tendo sido completado por volta de 1500 a.C. Há quem pense que Stonehenge foi usado para sacrifícios humanos ou como lugar de sepultura para pessoas importantes. Contudo, existe também uma teoria popular segundo a qual se trataria de uma espécie de observatório, usado para prever os movimentos e os eclipses da Lua e do Sol. As provas estão no alinhamento dos monumentos, que permite que todos os anos, no solstício de verão, o Sol nasça de uma das pedras principais, conhecida como a Heel Stone.

Na mesma época em que começou a ser construído o Stonehenge, mas em outro continente, os Egípcios erigiam as suas pirâmides de Gizé, localizadas de maneira a alinharem perfeitamente com certas estrelas do céu. Os antigos egípcios tinham grande interesse pelo céu. As pirâmides do planalto de Gizé estão alinhadas com grande precisão de acordo com os pontos cardeais; cada uma das faces está orientada para norte, sul, este ou oeste com diferença de apenas alguns décimos de grau. Além disso, no tempo em que as pirâmides foram construídas, o pólo norte era diferente do atual. Há uma teoria, ainda não inteiramente fundamentada em provas, que sugere que Gizé foi construída como reflexo do céu noturno: as três pirâmides representariam as estrelas do cinturão da constelação de Orionte -conhecida pelos Egípcios como Osiris, o deus dos Mortos -, enquanto a Esfinge seria a constelação de Leão, e o rio Nilo a Via Láctea.

20-astronomia-no-passado

Dois milénios mais tarde, os Maias faziam o mesmo no Novo Mundo. A civilização maia estabeleceu-se em territórios dos atuais México, Guatemala, Belize, Honduras e El Salvador, e floresceu entre 1500 a.C. e 900 d.C.. Tal como os antigos Gregos, os Maias tinham um grande interesse científico pelos céus estimulado pela sua religião. As provas deste fascínio são claras, especialmente na orientação de muitas das suas cidades. Um bom exemplo disto é a famosa pirâmide

de Palenque. As janelas laterais e o topo estão orientadas de maneira a serem plenamente iluminadas pelo Sol na manhã anterior ao dia em que Vénus se torna visível. A pirâmide de Chichén Itzá oferece-nos outro exemplo. Nos equinócios, a iluminação do Sol sobre as escadas e no topo da pirâmide cria a ilusão de uma serpente –  Quetzalcoatl, o deus-serpente maia, que personifica o planeta Vénus.

Estes são apenas alguns exemplos de civilizações que se dedicaram de forma independente a desenvolver a sua arquitetura de maneira que esta se conformasse ao movimento da luz (e dos deuses) no céu.

O acontecimento de 2017

Esta época do ano é caracterizada pelo balanço nas diferentes áreas da sociedade, elegendo-se as figuras nacionais e internacionais e os acontecimentos que marcaram o ano. Mais do que uma revisão do que se passou, estas listas deveriam procurar marcar tendências esperadas para o ano seguinte.

Na Ciência, a definição do acontecimento do ano vem com um lastro de importância maior do que em outras áreas porque este evento está na pole position para ganhar um dos Prémio Nobel da área da Ciência no ano seguinte.

A revista Science escolheu para 2017, como acontecimento do ano, a primeira observação da colisão de duas estrelas de neutrões. A colisão das duas estrelas, a 130 milhões de anos-luz, gerou ondas gravitacionais detetadas na Terra. Ondas essas que tinham sido previstas há mais de cem anos pelo físico Albert Einstein, mas foram detetadas diretamente pela primeira vez em 2015 (Prémio Nobel da Física em 2017), quando dois grandes buracos negros (zonas do Universo de onde nada pode escapar, nem mesmo a luz) chocaram.

colisao_duas_estrelas_de_neutroes_nsf_ligo_sonoma_state_university_a_simonnet12425594_base
Ilustração: NSF/LIGO/Sonoma State University/A. Simonnet

As estrelas de neutrões são os objetos de grande escala mais densos no universo conhecido. Embora tenham apenas cerca de 30 km de diâmetro, têm uma massa como a totalidade do sistema solar. Usando uma outra imagem, seria como comprimir toda da população humana no volume de um cubo de açúcar. As estrelas de neutrões são assim chamadas porque são quase inteiramente constituídas por partículas subatómicas chamadas neutrões. Normalmente, os átomos contêm neutrões e protões nos seus núcleos. No entanto, quando se formam estrelas de neutrões, a compressão é tal que a matéria se desintegra. Os eletrões e os protões combinam-se para formar mais neutrões, e a estrela torna-se uma bola gigantesca de partículas subatómicas combinadas. As estrelas de neutrões normais têm campos de força magnéticos que chegam a ter 50 mil milhões de vezes mais potência do que um magneto do frigorifico. Por vezes formam-se campos ainda mais potentes, cerca de 100 mil milhões de vezes mais forte, que poderiam desmagnetizar todos os cartões de crédito existente na Terra.

Esta é uma descoberta do tipo dois em um: pela primeira vez, foram detetadas as ondas gravitacionais que se geram na violenta dança cósmica entre duas estrelas de neutrões, e também pela primeira vez, foi captado, com recursos a dezenas de telescópios terrestres e espaciais, o brilho intenso e efémero que se gerou na colisão inevitável que se seguiu. Esta observação permite por um lado confirmar ondas gravitacionais utilizando pela primeira vez a luz (até agora só se tinham confirmado este tipo de ondas nas colisões entre buracos negros), e por outro lado, a verificação de que as colisões de estrelas de neutrões produzem ondas gravitacionais.

Aguardemos até ao início de outubro para verificar se o acontecimento de 2017 vai originar um Nobel.

Realidade Aumentada

É comum ouvir dizer que cada indivíduo analisa a realidade que o rodeia de acordo com os seus valores. Esta ideia, dando diferentes perspetivas à mesma realidade, levou à criação de uma área tecnológica, em franca expansão, que mistura mundos reais e mundos virtuais. Esta nova tecnologia recebeu o nome de Realidade Aumentada (augmented reality).

A Realidade Aumentada é uma tecnologia, que combina elementos do mundo real com elementos virtuais em 3D, permitindo a interatividade entre objetos (reais e virtuais) em tempo real. Mais especificamente, consiste na sobreposição – realizada por meio de algum dispositivo tecnológico – de objetos virtuais tridimensionais (gerados por computador) num ambiente real. Tem origem num campo específico das ciências da computação, que exploram a integração do mundo real com elementos virtuais ou dados criados por computador.

A realidade aumentada combina um software específico, por exemplo o utilizado para desenvolver o jogo, com equipamentos, como câmara digital e GPS. Diversas áreas têm beneficiado com a possibilidade de sobrepor a realidade virtual com o nosso campo de visão destacando-se: o turismo, onde a locais históricos têm adicionando características virtuais às imagens reais: o utilizador pode localizar monumentos históricos, moradas e outros locais; obter informação sobre as distâncias entre o mesmo e os objetos circundantes; reconstrução virtual de edifícios antigos; a ciência; os jogos virtuais, e ainda, a arte, por exemplo, quando o espólio de um museu não pode estar exposto na sua totalidade poder-se-á recorrer à criação de museus virtuais. Um destes caso é o Museu Guggenheim de Bilbao onde foi implementado, pela Siemens IT Solutions and Services, um sistema de realidade aumentada, no qual, os visitantes recebem informações sobre o espaço cultural, as suas exposições e são guiados pelo museu, tendo acesso a informações especiais do edifício

Esta tecnologia exige a existência de apenas três componentes básicos: objeto real com algum tipo de marca de referência, que possibilite a interpretação e criação do objeto virtual; câmara ou dispositivo capaz de captar e transmitir a imagem do objeto real; software capaz de interpretar o sinal transmitido pela câmara ou dispositivo.

Nos últimos anos têm se assistido ao aumento exponencial desta tecnologia para as mais diversas áreas, como sejam a medicina, a marinha mercante, a educação, a bioengenharia, a física ou a geologia. Vejamos alguns exemplos: prospeção em hidrologia, ecologia ou geologia, mostrando informações específicas ou mapas tridimensionais; dispositivos de navegação em diversas situações, como por exemplo carro ou aeronaves, através de visores dotados de realidade aumentada integrados ao capacete do usuário ou apoio a tarefas complexas em cirurgias.

A Realidade Aumentada não deixa de ser o resultado de um caminho tecnológico que, se não fosse por todos avanços que se incorporam nos smartphones e tablets que utilizamos diariamente, este conceito dificilmente teria chegado aos níveis complexos a que chegou.

É comum ouvir dizer que cada indivíduo analisa a realidade que o rodeia de acordo com os seus valores. Esta ideia, dando diferentes perspetivas à mesma realidade, levou à criação de uma área tecnológica, em franca expansão, que mistura mundos reais e mundos virtuais. Esta nova tecnologia recebeu o nome de Realidade Aumentada (augmented reality).

A Realidade Aumentada é uma tecnologia, que combina elementos do mundo real com elementos virtuais em 3D, permitindo a interatividade entre objetos (reais e virtuais) em tempo real. Mais especificamente, consiste na sobreposição – realizada por meio de algum dispositivo tecnológico – de objetos virtuais tridimensionais (gerados por computador) num ambiente real. Tem origem num campo específico das ciências da computação, que exploram a integração do mundo real com elementos virtuais ou dados criados por computador.

A realidade aumentada combina um software específico, por exemplo o utilizado para desenvolver o jogo, com equipamentos, como câmara digital e GPS. Diversas áreas têm beneficiado com a possibilidade de sobrepor a realidade virtual com o nosso campo de visão destacando-se: o turismo, onde a locais históricos têm adicionando características virtuais às imagens reais: o utilizador pode localizar monumentos históricos, moradas e outros locais; obter informação sobre as distâncias entre o mesmo e os objetos circundantes; reconstrução virtual de edifícios antigos; a ciência; os jogos virtuais, e ainda, a arte, por exemplo, quando o espólio de um museu não pode estar exposto na sua totalidade poder-se-á recorrer à criação de museus virtuais. Um destes caso é o Museu Guggenheim de Bilbao onde foi implementado, pela Siemens IT Solutions and Services, um sistema de realidade aumentada, no qual, os visitantes recebem informações sobre o espaço cultural, as suas exposições e são guiados pelo museu, tendo acesso a informações especiais do edifício

Esta tecnologia exige a existência de apenas três componentes básicos: objeto real com algum tipo de marca de referência, que possibilite a interpretação e criação do objeto virtual; câmara ou dispositivo capaz de captar e transmitir a imagem do objeto real; software capaz de interpretar o sinal transmitido pela câmara ou dispositivo.

Nos últimos anos têm se assistido ao aumento exponencial desta tecnologia para as mais diversas áreas, como sejam a medicina, a marinha mercante, a educação, a bioengenharia, a física ou a geologia. Vejamos alguns exemplos: prospeção em hidrologia, ecologia ou geologia, mostrando informações específicas ou mapas tridimensionais; dispositivos de navegação em diversas situações, como por exemplo carro ou aeronaves, através de visores dotados de realidade aumentada integrados ao capacete do usuário ou apoio a tarefas complexas em cirurgias.

A Realidade Aumentada não deixa de ser o resultado de um caminho tecnológico que, se não fosse por todos avanços que se incorporam nos smartphones e tablets que utilizamos diariamente, este conceito dificilmente teria chegado aos níveis complexos a que chegou.

arart-aplicativo-realidade-aumentada

GIF retirado de http://www.tecnoartenews.com/share/arart-aplicativo-de-realidade-aumentada-da-vida-a-obras-de-arte/

Galeno de Pergamo

 

images

A história da ciência médica europeia reúne muitos nomes de destacados cientistas. Sem dúvida, Galeno figura entre os primeiros da lista, pois os seus ensinamentos foram dominantes durante muitíssimo tempo.

Galeno escreveu o Methodo medendi, sobre a arte da cura, que foi o paradigma do mundo médico no decurso de quinze séculos. Entre os seus contributos, a literatura médica menciona o ter descoberto que o funcionamento da voz é controlado pelo cérebro, que a espinal medula comanda os músculos, que o sangue circula pelas artérias, que existem as válvulas do coração e as funções renais, e também demonstrou que a preparação de fármacos devia obedecer a procedimentos rigorosos destinados à sua conservação.

Este médico, nascido em Pérgamo, na Grécia, no ano 130 e, falecido por volta de 216, em Roma, cultivou a sua mente desde muito tenra idade e, uma vez que descobriu a obra de Hipócrates de Cos, nunca a abandonou. A lenda relata que num sonho do pai apareceu o deus da medicina, Asclépio, que vaticinou o destino de Galeno.

No tempo de Marco Aurélio II chegou a integrar o mundo da corte, onde estudou a peste antonina e dissecou animais, pois na Roma antiga não era permitida a dissecação de cadáveres humanos, o que conduziu a ideias um pouco distorcidas. Baseou a sua fisiologia no pensamento aristotélico em relação à natureza e, no de Platão, no que respeita ao princípio regedor da alma, a psyche, formado por três dimensões: uma que se aloja no cérebro, outra no fígado e a terceira no coração.

A partir desse postulado, existem três espíritos, e cada um corresponde a uma classe de alma: o vital, situado na região torácica, tem o coração e os pulmões como principais órgãos e, para o mundo antigo, esse espírito chegava através do sistema arterial, junto com o calor inato do coração, a todo o organismo e determinava a morte ou não de uma pessoa; o vegetativo ou natural, que corresponde aos órgãos da zona abdominal, e o animal, dominante na região cerebral, que influenciava a personalidade e se deslocava para o resto do corpo através dos nervos.

Esta personalidade da ciência médica ganhou popularidade, também, por recorrer a muitas plantas a que atribuía propriedades curativas, para extrair delas as substâncias que lhe serviam para preparar medicamentos. E mais, a estas misturas deve-se a atual denominação “galénica” que alude à ciência da preparação de medicamentos. Para fazermos uma ideia, basta pensar que um preparado de Galeno podia chegar a conter mais de 60 ingredientes. Entre eles, figurava um com pretensão de antídoto para qualquer doença. Este chamava-se teriaga e o ódio figurava entre os seus principais componentes. O curioso é que o mesmo preparado vigorou até ao início do século XIX.

Os princípios, a obra e os medicamentos de Galeno perduraram vários séculos. No Renascimento, as suas bases começaram a ser questionadas a partir das ideias renovadoras do anatomista Vesalio.

Nobel da Medicina e Fisiologia 2017

Três investigadores americanos foram hoje distinguidos com o Nobel de Medicina pelo seu estudo sobre os mecanismos moleculares que determinam os nossos ritmos biológicos.

Unknown.jpg

Vale a pena ler esta entrevista de Diogo Pimentel é um investigador português na Universidade de Oxford, ao Público. On line aqui.

Evolução de espécies

Ao longo de muitos milhões de anos, pequenas diferenças hereditárias entre populações de organismos conduziram ao aparecimento de espécies novas. Cada organismo possui uma pequena diferença e, ocasionalmente, uma delas permite aos organismos que a transportam, produzir mais descendência do que aqueles que a não têm. A diferença torna-se mais difundida na população e pode chegar-se a um ponto em que os organismos com a diferença não podem cruzar-se com os organismos que a não têm. A subida do nível dos mares, o crescimento de uma linha de montanhas, ou qualquer outra barreira física insuperável pode dividir espécies em populações. Nos dois casos, dois grupos são reprodutivamente isolados e tornam-se espécies separadas. Porque estas espécies continuam a evoluir, as diferenças exteriores entre elas podem aumentar, diminuir ou manter-se as mesmas. Se as diferenças entre espécies relacionadas aumentam, e por isso as espécies passam a ser dissemelhantes, as suas evoluções são ditas divergentes. Se são espécies descendentes de um antepassado comum e continuam a parecer-se umas com as outras, são exemplo de evolução paralela.

Pode também suceder que espécies não relacionadas comecem a parecer-se uma com a outra, por vezes tão próximas, que se torna difícil considerá-las separadas. Isso é evolução convergente e ocorre quando há organismos que adoptam comportamentos de vida semelhantes em ambientes semelhantes. Evolução convergente significa que algumas plantas e animais em tipos particulares de ambiente, por exemplo em florestas chuvosas, desertos e regiões polares, se assemelham muito a outros em outras partes do mundo, mesmo quando as espécies não estão estreitamente relacionadas.

Ao conceito de evolução temos de acrescentar o conceito de adaptação. Quando as pessoas emigram para um país estrangeiro podem precisar de adaptar-se a condições novas e por vezes desafiadoras. Podem precisar de aprender uma língua nova, adaptar-se a convenções sociais, comer alimentos não familiares e proceder a muitas outras mudanças significativas para o tipo de vida a que estavam habituados.

evolução das espécies
imagem retirada de Daniel Marin

Adaptação tem também um significado científico semelhante, mas muito mais preciso. Um organismo que possua as características físicas que lhe dão uma vantagem sobre outros membros da sua espécie, no ambiente particular em que habitam, será mais bem-sucedido do que outros. Produzirá melhor descendência, e se os descendentes herdarem essa característica, também eles vão beneficiar das vantagens que ela lhes confere. Estes descendentes estarão mais bem-adaptados ao ambiente do que os indivíduos a quem a característica falta, e a característica fixar-se-á na população. Após algumas gerações os membros dessa população vão possuí-la. Pequenas diferenças que apareçam entre indivíduos resultam de mutações genéticas. A acumulação gradual destas mutações conduz ao aparecimento de novas substâncias.

Contudo, as espécies não duram para sempre. Por exemplo, espécies de mamíferos duraram um milhão de anos e espécies de invertebrados duraram onze milhões de anos. A formação de espécies, ou especiação, e a extinção ocorreram em todos os tempos, mas tem havido episódios em que um acontecimento tem causado o desaparecimento de um número grande de espécies num período curto. Há evidências de várias extinções em massa e muitos cientistas suspeitam de que estamos a entrar numa agora, neste caso resultante principalmente da ação humana. A seguir a uma extinção em massa, ficam disponíveis recursos abundantes para os sobreviventes. Vamos ver para onde nos leva esta extinção…

William Morris Davis e o ciclo geomórfico

No seu tempo, o desenvolvimento do relevo terrestre explicava-se através do relato de uma grande inundação bíblica. Em contraste, Davis desenvolveu uma teoria que explica a criação e destruição da paisagem, a que chamou ciclo geomórfico.

William_Morris_DavisFoi William Morris Davis (1850-1934) célebre geógrafo norte-americano, que propôs uma teoria geral que relaciona os agentes e os processos com os resultados que se observam na natureza. Esta teoria desenvolvia a ideia de que as montanhas e restantes acidentes geográficos são modelados pela influência de uma série de factores que se manifestam num ciclo que tem uma fase inicial, uma intermédia e uma final. O ciclo geomórfico de Davis, como é conhecido, inicia-se com o levantamento do relevo como consequência de processos geológicos. Os rios e a escorrência superficial começam a criar os vales em forma de V entre as montanhas – a etapa designa por juventude).  Durante esta primeira etapa, o relevo é mais escarpado e irregular. Depois, as correntes podem talhar vales fluviais – maturidade – e depois começar a serpentear , sobressaindo apenas suaves colinas – velhice. Finalmente, tudo chega a uma superfície quase plana, com a elevação mais baixa possível, chamados nível de base. Esta superfície foi batizada por Davis “peniplanície”, que significa “quase um plano”. Então, ocorre o “rejuvenescimento” se houver outro levantamento de montanhas e o ciclo é reativado e continua.

Não obstante, o mundo real nunca se ajusta a modelos deterministas, típicos do pensamento do início do século XX, e não é tão ordenado como os ciclos de Davis, assim como as suposições de Darwin não correspondem, de forma exata à dinâmica da evolução. Embora a teoria de Davis não explique todos os fenómenos geomórficos (de modelação terrestre) e os seus resultados na modificação da paisagem, provocou uma grande agitação no pensamento do seu tempo e ajudou a modernizar as ideias predominantes ao criar o subcampo da geografia atualmente conhecido como geomorfologia (que, por sua vez, hoje também é um subcampo da geologia).

A teoria de Davis tem aplicação em termos gerais e foi retificada, aperfeiçoada e validada através dos contributos de reconhecidos cientistas ao longo dos últimos anos. Willliam Morris Davis foi, sem dúvida, um dos maiores geógrafos académicos do século e, por isso, é conhecido como o “pai da geografia americana”.

O Homem de Piltdown

Uma mandíbula, uma parte de um crânio e um dente foram os vestígios fósseis encontrados em 1913 numa quinta de Piltdown, no sul de Inglaterra. Estes vestígios foram inicialmente motivo de grande alvoroço no mundo científico da época, mas acabariam por ser a fonte de um grande escândalo.

fossil-698609
Charles Dawson (imagem retirada desta página)

Charles Dawson, advogado, antiquário, colecionador de objetos raros e arqueólogo amador, apresentou-se perante a prestigiada Sociedade Geológica de Londres no outono de 1913 e declarou ter descoberto o Eoanthropus dawsoni, o “Homem de Piltdown”, o antepassado da humanidade, o elo perdido, numa quinta de Piltdown, na região de Weald, no sul de Inglaterra. Durante anos manteve-se vivo o debate sobre a origem destes vestígios, e a imprensa afirmou que muito provavelmente corresponderiam ao elo perdido, que denominaram Eoanthropus dawsoni (em honra do seu descobridor).

Em 1953, quando Dawson já tinha falecido, os investigadores descobriram que os vestígios tinham sido tingidos, limados, lascados e enterrados no poço onde acabariam por ser “casualmente encontrados” pelo advogado e colecionador. Tinham começado a colocar-se cada vez mais interrogações sobre a antiguidade e a origem desses vestígios. Por fim, o dentista A.T. Marston determinou que os dentes desse esqueleto correspondiam a um orangotango, o dente solto, a um macaco, e o crânio, a um ser humano (Homo sapiens): a partir de então, as análises do conteúdo em flúor dos ossos demonstraram que o enterramento tinha sido intrusivo, e concluiu-se ainda que a cor escura dos ossos se devia a um tratamento químico.

Contudo, a “descoberta” de Dawson teve o apoio de figuras importantes do mundo científico da época, como Arthur Smith Woodward (diretor do Departamento de Geologia do Museu Britânico de História Natural e presidente da Sociedade de Geológica) e do paleontólogo e filósofo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin. E até mesmo de escritores de grande popularidade, como Sir Arthur Conan Doyle, vizinho de Dawson e pai literário de Sherlock Holmes.

Quem cometeu a fraude? E por que razão? O certo é que desde que o engano foi divulgado surgiram especulações de todo o tipo. Uma delas recorda que o único país onde nunca se tinham encontrado vestígios de hominídeos pré-históricos era a Grã-Bretanha, e propõe que é possível que Charles Dawson se tenha proposto resgatar a “honra britânica” criando uma das maiores fraudes científicas da história. Mas, independentemente de qualquer hipótese, a verdade foi para a tumba com o seu autor.